É difícil imaginar um projeto de pesquisa que não se altere no decorrer de seu desenvolvimento. No meu caso, também não é fácil imaginar um projeto que não se altere de modo significativo. Na minha trajetória, apenas no mestrado desenvolvi uma pesquisa que correspondia mais diretamente ao projeto proposto inicialmente. Ainda assim, não há dúvidas de que a dissertação que escrevi é substancialmente diferente do que imaginei que ela seria. Na graduação e, principalmente, no doutorado, as diferenças foram ainda maiores, e não estão apenas no resultado da pesquisa, pois a constituíram internamente, definiram o ritmo e a consistência de seu próprio processo, demarcaram os limites de suas ambições, mas também das retrações, recortes e reduções que atravessou. (Ao propor projetos de pesquisa e ao entrar em contato com projetos alheios, frequentemente pensamos na necessidade de reduzir o alcance de propostas muito amplas e ambiciosas, mas é importante reconhecer que, assim como ambições excessivas podem inviabilizar uma pesquisa, recortes muito restritivos podem ser um empobrecimento, além de quase sempre envolverem uma equivocada repressão da curiosidade.)

O projeto que desenvolvo atualmente já passou por uma série de alterações que considero significativas, e já consigo prever algumas outras que estão apenas se insinuando, no momento. Uma das alterações já evidenciadas é em seu ritmo, que tem sido mais demorado do que previ. De fato, o cronograma contido no projeto Imagem e direitos humanos é apressado e, provavelmente, suas etapas e objetivos se prolongarão além do período previsto para desenvolvimento do projeto. Isso não significa que os artigos ali propostos não serão produzidos, mas que sua finalização e sua publicação ocorrerão depois. O que está em jogo aqui é o tempo da pesquisa, em suas relações com o tempo do pensamento, de um lado, e com o tempo das demandas de trabalho que não são pertinentes à pesquisa (as aulas, de modo geral, podem ser bastante pertinentes; no mínimo, não me parecem prejudicar as coisas; reuniões e burocratizações diversas do trabalho acadêmico, por sua vez, estão distantes de qualquer possibilidade de contribuição para a pesquisa e o pensamento).

Além de um ritmo menos apressado, o desenvolvimento da pesquisa tem envolvido alterações no modo como os recortes temáticos ali propostos têm sido abordados. Por exemplo, a ideia de produzir um artigo para cada recorte temático foi praticamente abandonada, e já estou prevendo a necessidade de mais de um artigo sobre o genocídio indígena no cinema (além de abordar vários filmes num texto transversal em desenvolvimento, pretendo explorar alguns filmes de modo mais profundo em suas singularidades) ou sobre a escravidão transatlântica, tema do qual comecei a me aproximar mais recentemente, para elaborar minha proposta de comunicação para o XXII Encontro SOCINE, que será realizado em Goiânia, de 23 a 26 de outubro de 2018.

Inscrevi minha proposta no Seminário Temático "Cinema Negro africano e diaspórico – Narrativas e representações" (página arquivada), coordenado por Kênia Freitas, Janaína Oliveira e Edileuza Penha de Souza. Há uma relação direta entre a proposta e meu interesse em cinemas africanos, que não está, contudo, no cerne do projeto de pesquisa. Nesse sentido, o trabalho que propus articula o atual projeto com ideias que pretendo transformar num projeto futuro, especificamente voltado ao estudo dos cinemas africanos (e baseado, igualmente, em experiências que já comecei a desenvolver em aulas).

A quem interessar possa, eis o título da proposta pra Socine 2018:

Retomar o passado: a escravidão em filmes africanos

O resumo curto é o seguinte:

Embora exista uma diversificada iconografia da escravidão transatlântica, imaginar a experiência da escravidão é, em alguma medida, confrontar o inimaginável. Por meio da análise exploratória de filmes ficcionais africanos que se dedicam a essa confrontação e ao dever imaginativo que a ela corresponde, esta comunicação interroga as configurações narrativas que conferem legibilidade à história do fenômeno e as articulações de imagem e som que tornam possível inscrevê-lo em formas sensíveis.

O resumo expandido, por sua vez:

Na história das violações da dignidade humana que, em seu preâmbulo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 cifrou como “atos bárbaros”, contra os quais o documento afirma a “consciência da humanidade” e o projeto cosmopolítico dos direitos humanos, a escravidão transatlântica ocupa uma posição central. Seja por constituir um dos casos mais extremos e sistemáticos do que o direito internacional contemporâneo denomina “crime contra a humanidade” e, ao mesmo tempo, em sua incidência sobre corpos negros, permanecer sem reparação, seja por definir uma herança histórica irredutível de diversas sociedades atuais e um dos fatores determinantes de incontáveis formas de violações de direitos humanos que continuam a ocorrer, a escravidão transatlântica corresponde a um dos traumas históricos mais densos e opacos dos tempos atuais, e se seu processo histórico está situado no passado, seus sentidos e sua herança permanecem constitutivos do presente. O fenômeno da escravidão contribuiu para o desenvolvimento do capitalismo (WILLIAMS, 2012), participa da configuração do imaginário colonial/moderno (MIGNOLO, 2003; SHOHAT, STAM, 2006) e define, de modo profundo e irredutível, as sociedades europeias, americanas e africanas que configuram o chamado “mundo atlântico” (THORNTON, 2004).
A vasta iconografia construída historicamente por escravistas e abolicionistas, assim como aquela que se prolonga no trabalho de memória que sucede as abolições, define parte das condições de legibilidade da história que fundamentam qualquer compreensão atual do trauma histórico da escravidão. Entretanto, como argumenta Marcus Wood (2000, p. 8; tradução nossa), “num sentido importante, as ondas de iconografia geradas na Europa e nas Américas por sucessivos momentos de emancipação não representam visualmente, de modo algum, a escravidão ou sua memória” e devem ser compreendidas, ao lado da “construção hagiográfica dos ‘defensores’ brancos da abolição”, como parte de “uma mitologia branca”. Ao mesmo tempo, escreve Wood (2000, p. 8), “o testemunho produzido pelos próprios escravos, que é frequentemente projetado por filtros criativos e econômicos brancos, é igualmente complicado em sua relação com o que quer que compreendamos como verdade histórica”.
Se a “verdade histórica” e a escravidão como experiência permanecem, nesse sentido, irredutivelmente inimagináveis, a compreensão do trauma da escravidão e de sua herança contemporânea deve envolver uma confrontação do inimaginável. Enquanto a iconografia abolicionista se torna paradigmática no uso de imagens como denúncias de violações, o trabalho de memória em torno da escravidão associa a iconografia histórica, seja ela escravista ou abolicionista, a uma série de desdobramentos, em diferentes formas de expressão artística. Nesse contexto, procedimentos de fabulação e invenção reconfiguram as imagens existentes, deslocando os sentidos do passado a partir de posicionamentos no presente e conferindo ao trabalho de memória um sentido imaginativo. Uma possibilidade que se torna especialmente significativa, nesse sentido, é a retomada do passado pela perspectiva negra africana. Em filmes como Sankofa (Haile Gerima, 1993) ou Adanggaman (Roger Gnoan M’bala, 1999), por exemplo, a reivindicação do direito de olhar, de narrar e de imaginar o mundo que define o impulso originário dos cinemas africanos (RIBEIRO, 2016) incide sobre a escravidão. Articulando passado e presente, o tema é abordado, nas duas obras, por meio de configurações narrativas e de constelações de imagem e som que será preciso analisar, para que seja possível compreender os modos como os filmes constroem a legibilidade da história e, ao mesmo tempo, conferem consistência sensível à experiência da escravidão*. Considerando a iconografia e as imagens existentes, como os filmes fabricam as imagens que faltam da escravidão como experiência?
*A frase foi editada, retirando o seguinte trecho, que aparecia antes do ponto final: "de modo a interrogar três problemas fundamentais". Ao finalizar o resumo, não percebi que este trecho estava sobrando (a ideia nele contida e os três problemas a que se refere faziam parte de uma versão anterior do resumo expandido).
Referências:

MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Tradução de Solange Ribeiro de Oliveira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

RIBEIRO, Marcelo R. S. Cosmopoéticas da descolonização e do comum: inversão do olhar, retorno às origens e formas de relação com a terra nos cinemas africanos. Rebeca - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 5, n. 2, p. 1–26, 2016.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. Tradução de Marcos Soares. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

THORNTON, John K. A África e os africanos na formação do mundo Atlântico 1400-1800. Tradução de Marisa Rocha Morta. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravidão. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

WOOD, Marcus. Blind memory: visual representations of slavery in England and America. New York, NY: Routledge, 2000.

A discussão que estou propondo se situa no projeto Imagem e direitos humanos, mas o modo como está sendo proposta é bastante distinto do que havia previsto ali. Talvez a ideia que concebi inicialmente, que consistia na comparação de representações e abordagens da escravidão em Hollywood e em filmes africanos, venha a ser desenvolvida, mas no momento preferi enfatizar a perspectiva africana, que é, certamente, menos estudada. Seja como for, passar ao tema da escravidão implicou, também, em relação ao projeto, em alterar a ordem de algumas de suas etapas, adiando a abordagem do genocídio ruandês. Tudo isso ocorreu em decorrência de uma redução de ritmo e de uma abertura para o tempo do pensamento em sua singularidade. No cerne das alterações que o projeto atual está atravessando, está um reconhecimento que tem se tornado cada vez mais importante para mim: o reconhecimento da pesquisa - ou do meu modo de fazer pesquisa, ao menos - como uma experiência da deriva, isto é, de uma abertura indisciplinar em que não são proposições cognitivas, teóricas, conceituais e metodológicas que definirão o andamento do pensamento, mas experimentações sensíveis.

Foi a experiência da deriva que me conduziu à urgência de abordar a temática da escravidão nos cinemas africanos, por meio dos dois filmes que tenho em vista até o momento. É também da deriva que decorreu a interrogação das imagens que faltam na iconografia da escravidão, uma vez que os filmes são, talvez, suplementos a parte das imagens que faltam, adicionando às lacunas seu excesso ficcional, sua fabulação, sua fabricação de imagens. Devo ao reconhecimento da pesquisa como deriva, finalmente, a ideia de desenvolver este trabalho como um ensaio - ou ao menos de pensar a elaboração de um ensaio a partir da análise a ser realizada neste trabalho... Veremos. Essa ideia não está explícita na proposta, mas tem definido minha perspectiva de modo cada vez mais fundamental. Se a pesquisa é deriva, o texto que registra a pesquisa talvez seja melhor construído sob a forma de um ensaio.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.