Bolaño, Bolaños: a confusão como procedimento

Alguém perguntou num grupo virtual de que participo: “Quais escritores contemporâneos são os favoritos de vocês?”

Aí me lembrei de Roberto Bolaño, o escritor de 2666 e tanta coisa incrível, que achava magistral e até se arriscava a dançar Aserejé, uma música de grande sucesso popular, assim como Chaves, o programa de TV de Roberto Bolaños, ator mexicano cujo nome se parece tanto com o do escritor chileno.

E realmente: Aserejé é essa música incrível que, segundo um relato que acabei de descobrir (página arquivada), Bolaño dançava com a filha pequena, em sua casa de Blanes. Que imagem bonita: um escritor que dança; um pai que dança; um escritor que é pai e dança; uma filha pequena; uma filha pequena que dança com seu pai; uma filha pequena de um escritor, e ambos dançam. A imagem se multiplica e continua bonita.

(Não me lembro de ter dançado Aserejé com minha filha, mas quero fazer isso assim que estivermos juntos: sempre que se abre nela um respiro de possível, uma imagem também se multiplica em mais de um desejo de felicidade.)

Entre Bolaño e Bolaños, me lembrei também da história da letra de Aserejé (página arquivada), que tem a ver com essa outra música incrível chamada Rapper's Delight. É uma história muito boa - ótima literatura aliás, e é provável que Bolaño nem soubesse disso.

O que mais me inquietou nessa lembrança é que história da relação entre Aserejé e Rapper's Delight - que você pode ler como se fosse um texto só (página arquivada), transformando a literatura do Twitter em um arremedo de conto, ou quase - começa com uma confusão. Com um estado de confusão: o estado de confusão de Diego, o protagonista da letra de Aserejé, que viene rumbeando depois de virar a esquina. É a confusão de Diego - drogado, bêbado ou com sono (ou alguma combinação disso), ao que parece, pois está con la luna en las pupilas - que faz com que ele cante mal a música que o DJ coloca pra tocar quando ele chega:

Tudo isso pra dizer que minha resposta pra pergunta sobre escritores contemporâneos favoritos foi: “Roberto Bolaño (não confundir com o Bolaños) [ou confundir, o que talvez faça jus à literatura de ambos]”. Gostaria de propor, mais exatamente (e se trata aqui, exatamente, de desregrar toda exatidão), que a confusão pode ser um procedimento do pensamento, embora jamais um método.

Todo método depende de conceitos, enquanto a confusão, entendida como procedimento de pensamento, é o estado passageiro, embora duradouro em seus efeitos, de tudo o que desarticula o conceito e fragmenta o discurso - como a embriaguez ou o sono de Diego cantando Rapper's Delight.

Na medida em que pode haver criação na desarticulação, na medida em que pode resistir alguma promessa na barbárie (quando ou onde talvez seja possível entrever um novo começo, como sugere Walter Benjamin em seu belíssimo ensaio "Experiência e pobreza"), existe Aserejé, existe a dança de Bolaño com sua filha, existe um mundo possível, apesar de tudo.

Pode-se talvez aproximar a confusão daqueles “meios pouco confessáveis, pouco racionais e razoáveis” que, segundo Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O que é a filosofia? (p. 52), possibilitam o traçado do plano de imanência “pré-filosófico” e “não conceitual” (p. 51) que todo pensamento deve traçar e instaurar como um deserto e como um horizonte. "São meios da ordem do sonho, dos processos patológicos, das experiências esotéricas, da embriaguez ou do excesso” (p. 52), ao lado dos quais a confusão pode ser reconhecida.

Pensar é sempre seguir a linha de fuga do voo da bruxa. […] É que não pensamos sem nos tornarmos outra coisa, algo que não pensa, um bicho, um vegetal, uma molécula, uma partícula, que retornam sobre o pensamento e o relançam. (p. 53)

Tudo isso pra dizer, ainda, que há uma pesquisa a ser feita, e é uma baita pesquisa, pensando confusamente Bolaño e Bolaños, desfazendo e refazendo a confusão como uma forma de deriva; pensando as confusões possíveis entre seus nomes próprios, o singular e o plural, embora sejam ambos igualmente singulares ou plurais, singulares e plurais, como nomes de família; pensando a literatura de ambos, isto é, os textos de um e as esquetes de outro, as palavras de um e as imagens do outro, os parágrafos de um e as cenas do outro, as imagens de um e as palavras do outro etc.

Se alguém se interessar, diz aí. Eu topo.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.