Auschwitz, memória, fantasma

Enquanto preparava a aula de hoje de Cinema e História, acabei fazendo uma visita virtual ao Museu de Auschwitz, por meio de recursos do Google. A certa altura, passei do registro externo da entrada do museu, capturado por uma das viaturas do Street View em junho de 2013, para uma fotografia em 360 graus, feita por um visitante do museu, Paweł Kowalski, em uma visita ao local, datada de julho de 2014. A visitação virtual se converteu, gradualmente, numa deriva, cujo itinerário incerto tinha como objeto menos o próprio museu do que as imagens em que suas paisagens recentes se inscreveram. Particularmente, na fotografia de Kowalski, a deriva se tornou uma inquieta movimentação em torno de um buraco negro.

 Captura de tela de fotografia em 360 graus, feita por Paweł Kowalski, em uma visita ao Museu de Auschwitz, em julho de 2014, tal como aparece a partir do Google Street View

Captura de tela de fotografia em 360 graus, feita por Paweł Kowalski, em uma visita ao Museu de Auschwitz, em julho de 2014, tal como aparece a partir do Google Street View

 A fotografia de Pawel Kowalski em sua versão original, que pode ser visualizada corretamente por meio de aplicativos capazes de exibir de registros em 360 graus (basta baixar o  arquivo ). É interessante pensar, ao mesmo tempo, nos efeitos inesperados da visualização da fotografia em 360 graus como uma imagem plana: os borrões, os  glitchs , as asperezas, as distorções…

A fotografia de Pawel Kowalski em sua versão original, que pode ser visualizada corretamente por meio de aplicativos capazes de exibir de registros em 360 graus (basta baixar o arquivo). É interessante pensar, ao mesmo tempo, nos efeitos inesperados da visualização da fotografia em 360 graus como uma imagem plana: os borrões, os glitchs, as asperezas, as distorções…

Auschwitz é um dos lugares da memória mais importantes para a "consciência da humanidade" que declara, em 1948, os direitos humanos (conforme a reinvenção paradigmática contemporânea do discurso dos direitos universais). Ao mesmo tempo, um detalhe - um punctum, talvez, como diria o Roland Barthes de A câmara clara - irradia sua estranha intensidade na foto de Kowalski: um dos visitantes, provavelmente um turista, aparece sem seus pés. Ele parece fixar seus olhos no visor de uma câmera, enquanto um glitch da fotografia de Kowalski converte sua presença no lugar da memória na ocasião de uma fantasmagoria. O buraco negro não é um vazio, mas uma potência explosiva. E, de fato, Auschwitz se revela, dessa forma, como um lugar da memória que é, necessariamente, ao mesmo tempo, um lugar do fantasma, com tudo o que isso tem de incontrolável e de imprevisível.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.