Vista da janela em Le Gras (1826-7), de Joseph Nicéphore Niépce

A fotografia como imagem em movimento

Quando Joseph Nicéphore Niépce produziu o primeiro exemplar do que chamou de “heliografia” (literalmente, a escrita do sol), em 1826 ou em 1827 (a data exata é desconhecida), precisou de mais de 8 horas de exposição à luz de uma placa de estanho, coberta com betume da Judeia e instalada no fundo de uma câmera escura, para que a vista da janela de sua casa pudesse ser fixada sob a forma de uma imagem.

Câmera escura de Niépce, c. 1820-1830 - Musée Nicéphore Niépce (Imagem retirada daqui.)

Câmera escura de Niépce, c. 1820-1830 - Musée Nicéphore Niépce
(Imagem retirada daqui.)

Ao entrar em contato com a luz, o betume endurece, o que possibilita a aplicação do mesmo princípio da gravura em água-forte para a fixação dos traços, que são desenhados pela luz, e não pela mão humana. Por meio de um banho em solução ácida, o betume não endurecido é retirado da placa, e o ácido inscreve o desenho no metal. Finalmente, retira-se o betume endurecido, e resta apenas a placa de metal com o desenho de luz gravado em sua superfície.

Placa de metal com a Vista da janela em Le Gras (1826-7) (Imagem retirada daqui.)

Placa de metal com a Vista da janela em Le Gras (1826-7)
(Imagem retirada daqui.)

No período longo de exposição, a luz do sol atravessou o céu, deixando as marcas de seu movimento na superfície metálica em que a imagem veio a se formar, como uma gravura. Se o processo ótico de projeção da imagem no fundo da câmera escura era conhecido séculos, Niépce foi um dos que experimentaram com inúmeras possibilidades de fixação da imagem capturada pelo dispositivo ótico. O processo físico-químico de inscrição do que veio a se chamar fotografia foi sistematizado e alcançou viabilidade técnica efetiva apenas na primeira metade do século XIX, e Niépce foi um dos responsáveis pelas primeiras experiências bem sucedidas a esse respeito.

Vista da janela em Le Gras (1826-7), de Joseph Nicéphore Niépce (Imagem retirada daqui.)

Vista da janela em Le Gras (1826-7), de Joseph Nicéphore Niépce
(Imagem retirada daqui.)

Na vista da janela de sua casa, a inscrição da luz solar multiplicou as sombras. Os contornos de telhados e de janelas permitem reconhecer prédios dos dois lados da imagem, cuja perspectiva geométrica projeta o espaço para o fundo. A paisagem é vaga, devido aos contornos imprecisos e à inscrição do movimento da luz do sol e das sombras. Efetivamente, a heliografia de Niépce, que entrou para a história como a primeira fotografia, está distante de ser um instantâneo e constitui uma imagem fixa apenas de acordo com uma definição estrita, uma vez que o movimento pertence a seu modo de constituição e participa da tecelagem de sua trama. Pode-se imaginar as transformações graduais que o movimento do sol imprimiu sobre a placa de metal coberta de betume da Judeia, o que permite pensar o processo de inscrição heliográfica como se fosse um desenho animado. De fato, a primeira fotografia da história é uma imagem em movimento que se cristalizou.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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