Assista Viagem à Lua (1902) em preto e branco e comentado

O primeiro título apresentado no livro 1001 filmes para ver antes de morrer é Viagem à Lua (Le Voyage dans la Lune, 1902), de Georges Méliès. A obra está em domínio público e pode ser facilmente encontrada, em diversas versões.

Versão PB com comentários

Abaixo, você pode assistir uma versão em preto e branco, com comentários em voz over, que está disponível no site Internet Archive. Fiz legendas em português  para os comentários, que são uma espécie de apresentação da narrativa. Você pode assistir a partir Internet Archive, diretamente, mas dessa forma as legendas não estarão disponíveis. Sugiro que faça o download do filme e das legendas e assista no seu computador.

A prática de comentar as imagens para os espectadores tornou-se comum nos primeiros tempos do cinema, num período em que ocorreu a passagem do cinema de atrações para o cinema narrativo. No contexto das atrações, não é exato falar em "filmes", como costumamos fazer hoje, mas sim em vistas cinematográficas, como aquelas que são encontradas no catálogo Lumière. No contexto do cinema narrativo, as várias possibilidades de estilo e de forma de construção da narração que, atualmente, caracterizam o cinema mundial decorrem de um processo histórico de experimentação e de exploração com as possibilidades narrativas do aparelho cinematográfico.

Uma das formas iniciais da narração cinematográfica operava com base na introdução de suplementos à imagem, no momento da exibição. Dessa forma, músicos podiam se apresentar, ao vivo, enquanto imagens sem som sincronizado eram projetadas para o público; atores e sonoplastas podiam ser colocados atrás da tela em que se projetavam as imagens, para dublar personagens e para criar efeitos sonoros diversos; e palavras podiam ser articuladas à projeção, para explicar as imagens (muitas vezes "confusas" para espectadores não familiarizados) e tornar seu fluxo menos anárquico, mais linear.

O comentário que acompanha a versão em preto e branco de Viagem à Lua que se encontra abaixo pode ser considerado uma versão mais recente (e mais densa, talvez, pois traz grande quantidade de informações) do papel do comentador no primeiro cinema. Se a imagem do vídeo acima é de baixa qualidade, as explicações da voz over podem ser interessantes, pois identificam personagens e aspectos mitológicos da narrativa. Eis a transcrição das legendas:

Os astrônomos estão reunidos num grande salão decorado com instrumentos. O presidente e os membros do comitê entram. Todos tomam seus lugares. Entrada de seis servidores com os telescópios dos astrônomos. O presidente assume sua cadeira e explica aos membros os seus planos de uma viagem à lua. Seus esquemas são aprovados por muitos. Mas um membro se opõe violentamente mesmo assim. Depois de alguns argumentos, o presidente atira seus papeis e livros na sua cabeça.

Com a ordem restabelecida, a viagem proposta pelo presidente é votada por aclamação. Cinco sábios decidem ir junto com ele. Os servidores trazem trajes de viagem. O presidente Barbenfuillis seleciona cinco colegas para acompanhá-lo: Nostradamus, Alcofribas, Omega, Micromegas e Parafaragaramus.

Entramos no interior das oficinas onde ferreiros, mecânicos, pesadores, carpinteiros, estofadores etc. trabalham duro para completar a máquina. Micromegas cai acidentalmente num balde de ácido nítrico. Um trabalhador informa os astrônomos que, se eles subirem até os telhados, testemunharão um esplêndido espetáculo: a moldagem do canhão.

Os astrônomos sobem por uma escada e chegam ao telhado. Contra o horizonte, as chaminés são vistas arrotando volumes de fumaça. De repente, uma bandeira é hasteada. Ao sinal, uma massa de ferro derretido é dirigida de cada fornalha para dentro do molde para o canhão. O molde solta chamas e vapor. Isso causa muito júbilo entre os entusiasmados astrônomos.

No topo dos telhados da cidade, pomposos preparativos foram feitos. O projétil está em posição, pronto para receber os viajantes. Estes chegam... respondem às aclamações da multidão... e entram no projétil. Um fuzileiro fecha a ponte por onde passaram. Vários artilheiros agora empurram o projétil por uma inclinação, para dentro da boca do canhão. O canhão está carregado. A ponte está fechada. Todos aguardam ansiosamente pelo sinal que dará início à viagem do projétil. O oficial dá o sinal. O canhão dispara. E o projétil desaparece no espaço.

Com o projétil se aproximando a cada minuto, a lua se amplia rapidamente até que rapidamente ela atinge dimensões colossais. De repente, o projétil beija o olho da lua. O projétil vem abaixo com um estrondo. Os astrônomos saem e se encantam com a paisagem, que é nova para eles. Contra o horizonte, a Terra se ergue vagarosamente no espaço, iluminando o quadro com uma luz fantástica.

Os astrônomos, inspecionando o estranho país, veem crateras por toda parte. Quando estão em meio à exploração, uma explosão lança os infelizes homens violentamente em todas as direções. Os astrônomos mostram sinais de fatiga, depois da dura viagem que fizeram. Eles se estendem sobre o chão e vão dormir.

Sete estrelas gigantescas, representando a Ursa Maior, aparecem lentamente e, de dentro delas, surgem rostos de mulheres, que parecem incomodadas com a presença dos intrusos na lua. Em seus sonhos, eles veem a passagem de cometas, meteoros etc. no espaço. Então, as estrelas são substituídas por uma visão adorável de Febo na lua crescente, de Saturno em seu globo circundado por um anel e de encantadoras jovens segurando uma estrela.

Eles decidem punir os terrestres de maneira exemplar. Por ordem de Febo, neve começa a cair por todos os lados, cobrindo o chão com seu manto branco. O frio se torna terrível. Os infelizes viajantes acordam quase congelados. Decidem sem hesitação, e apesar do perigo, descer para dentro do interior de uma grande cratera, na qual desaparecem um por um, enquanto a tempestade de neve continua com furor.

Os astrônomos chegam ao interior da mais curiosa gruta. Aqui vemos enormes cogumelos de todos os tipos. Um deles abre seu guarda-chuva para comparar seu tamanho com um cogumelo, mas o guarda-chuva de repente se enraíza transformando-se em um cogumelo que começa a crescer gradualmente, atingindo gigantescas proporções.

Os astrônomos de repente notam estranhos seres saindo de baixo dos cogumelos, enquanto fazem contorções singulares. Esses são os selenitas, ou habitantes da lua. Um ser fantástico corre sobre um astrônomo, que se defende, e, com um golpe de seu guarda-chuva, o selenita explode em mil pedaços. Um segundo sofre o mesmo destino. Mas os selenitas chegam em quantidade.

Os astrônomos aterrorizados, para se salvarem, fogem, perseguidos pelos selenitas. Sucumbindo à quantidade, os astrônomos são capturados, amarrados e levados para o palácio do rei dos selenitas. Num trono esplêndido, circundado por estrelas vivas, o rei selenita está sentado. O presidente Barbenfouillis investe contra o rei dos selenitas e, erguendo-o como uma pena, atira-o com violência contra o chão. O infeliz rei explode como uma bomba.

Os astrônomos fogem no meio da desordem geral. O exército selenita os persegue. Os astrônomos correm a toda velocidade, virando-se para trás sempre que pressionados de muito perto pelos selenitas, reduzindo os frágeis seres a pó. A quantidade ainda crescente de selenitas obriga os astrônomos a tentar fugir de novo, desesperadamente.

Finalmente, os astrônomos encontram o projétil e rapidamente se espremem no seu interior. Graças ao avanço, conseguem superar seus adversários. Apenas um, o presidente, foi deixado para trás. Ele se apressa até a corda pendurada da ponta do projétil e, deixando-se deslizar por ela, dá um impulso que faz o projétil cair da beirada da lua. Um selenita agarrado ao projétil para segurá-lo é levado com ele e, segurando-se, acompanha o projétil em sua queda.

O projétil cai com estonteante rapidez. O mar aparece. Continuamos acompanhando o percurso do projétil no fundo do oceano. O projétil balança e graças ao ar hermeticamente fechado em seu interior sobe lentamente para a superfície, para a perplexidade dos peixes. O projétil é resgatado por um navio a vapor, que o leva para um porto, onde uma ovação geral aguarda o feliz retorno.

Outras versões

Versão colorida restaurada em 2010

Versão colorida restaurada em 2010

Versão restaurada em preto e branco

Versão restaurada em preto e branco

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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