Uma nota sobre Supernatural

Gosto muito de assistir séries e acompanho várias. De algumas, gosto muito, a ponto de considerar a possibilidade de revê-las por inteiro (como é o caso de Fringe The Big Bang Theory), ou de já ter feito isso (como é o caso de Lost e Friends). De outras, gosto menos, hesito se continuo ou não a assistir, mas acabo acompanhando. É o caso de Supernatural, que está agora em sua sexta temporada, contrariando os planos do criador Eric Kripke de encerrar a série na quinta temporada. A narrativa central tem como protagonistas os irmãos Dean e Sam Winchester, que são caçadores de fenômenos e criaturas sobrenaturais. A cada episódio, entrelaça-se o desenrolar da linha geral da narrativa - na qual, desde a primeira temporada, os irmãos seguem os passos do pai e procuram o demônio responsável pela morte de sua mãe, até que chegamos ao apocalipse, no final da quinta temporada - e a resolução de mistérios locais, que podem ou não estar relacionados com a linha geral.

Como sempre, haveria muito a dizer sobre Supernatural de um ponto de vista analítico, situando a série historicamente no contexto de gêneros fundamentais de Hollywood, como horror, suspense e fantasia, assim como na linhagem mais recente composta pelos seriados de televisão. Seria preciso falar de como a série recicla convenções de gênero do cinema, adaptando-as à forma seriada da televisão. Seria preciso também reconhecer os elementos cômicos, paródicos e (auto-)irônicos que atravessam os episódios, ligando o seriado a algumas convenções marcantes da televisão, que parece ser a máquina mais importante do cinismo que marca nossos tempos. Mas não pretendo dar conta desses desafios.

Gostaria de apontar um problema que é, a meu ver, central para qualquer compreensão de Supernatural. Trata-se da forma de articulação entre o universo simbólico global no qual se desenrola a linha geral da narrativa, no decorrer das várias temporadas, e os universos simbólicos locais acionados em alguns dos episódios. Se na linha geral a série movimenta elementos familiares do Ocidente cristão, encaminhando-se na direção do apocalipse através de um caminho que envolve demônios e anjos, céu e inferno, Lúcifer e Deus (embora este permaneça ausente, ou no mínimo inacessível aos personagens, até o momento atual), em vários episódios o que interessa são elementos exóticos, oriundos de contextos culturais não-ocidentais (como a Índia ou o Japão) e/ou não-cristãs (como as tradições religiosas afro-americanas ou a mitologia grega).

Para dizer de maneira sintética, é o seguinte: na articulação entre a linha geral da narrativa e os episódios em que elementos exóticos são abordados, está em jogo a assimilação da diferença histórico-cultural pelo aparato simbólico judaico-cristão, de modo que a diferença se reduz a uma diversidade domesticada, aparecendo como uma série de objetos intercambiáveis diante do olhar do sujeito ocidental, que ocupa (isto é, coloniza) a posição do universal.

Assistindo Supernatural, não canso de me lembrar de algumas palavras que o filósofo franco-argelino Jacques Derrida utiliza, em sua fabulosa Gramatologia, para descrever certos mecanismos de domesticação da diferença e da alteridade que operam em diferentes tendências do pensamento filosófico ocidental, do racionalismo ao misticismo. Derrida fala em um "procedimento de desconhecimento por assimilação" ("procédé de la méconnaissance par assimilation"), por meio do qual "A escritura do outro é a cada vez investida por esquemas domésticos" ("L'écriture de l'autre est chaque fois investie par des schémas domestiques"). Com a expressão "escritura do outro", Derrida se refere a formas de escritura que fascinam e intrigam a filosofia ocidental, como os ideogramas e os hieróglifos, cuja interpretação coloca em jogo, sempre, o problema do etnocentrismo e de seus muitos disfarces. No entanto, ao descontextualizar a citação, gostaria de sugerir que "escritura do outro" assume um sentido suplementar de fabricação de marcas de alteridade. Derrida discute o "procedimento de desconhecimento por assimilação" em leituras de textos filosóficos, mas não se trata de um problema restrito e circunscrito, e sim de algo recorrente em inúmeras instâncias da vida cultural ocidental.

Para mim, Supernatural constitui uma forma recente do procedimento de desconhecimento por assimilação, amplificando suas tramas por meio da indústria cultural. Em outras palavras, Supernatural se apropria de uma multiplicidade de "outros" do Ocidente, inscrevendo-os no imaginário global da te(le)ologia cristã, cujo horizonte é o apocalipse. No entanto, é justamente por isso que a sexta temporada (e a sétima, já confirmada) podem se tornar interessantes: afinal, nelas o apocalipse já aconteceu. Até agora, porém, nada tem sido interessante e a série parece perdida em seu próprio vazio.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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