Os macacos do Petting Zoo, de Christoph Niemann

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A imageria racial dos macacos jogadores de futebol

Eu tenho uma filha, e ela adora brincar com meu iPad. Há muitos apps para crianças, e eu fiquei cada vez mais preocupado com as formas como a visão de mundo da minha filha pode ser informada pelos signos e pelas imagens que os compõem. De fato, sempre que encontro um app que parece bom o suficiente, exploro seus recursos antes de permitir que minha filha entre em contato com ele.

Fonte: http://www.foxandsheep.com/product/petting-zoo/

Fonte: http://www.foxandsheep.com/product/petting-zoo/

Quando descobri o incrível Petting Zoo, concebido por Christoph Niemann, fiquei maravilhado pela simples inventividade das animações desenhadas à mão, pela potência imaginativa dos quadros e das transições entre os animais e pelo lúdico entrelaçamento entre a música e as imagens, que faz do app um incrível livro interativo, embora sem palavras. É uma grande obra, a meio caminho entre um livro de figuras e um jogo de videogame, e seus sons e imagens tem uma qualidade única que é difícil de encontrar na maioria dos apps para crianças.

Um livro interativo: a narrativa

O app tem a estrutura de um livro: cada personagem (ou conjunto de personagens) tem seu próprio quadro, que funciona como um capítulo. Há setas nos cantos inferiores de cada um dos quadros, que acabam funcionando como páginas de um livro eletrônico: você precisa tocar a parte de baixo, à esquerda ou à direita, para recuar ou avançar. Pode-se dizer que há uma narrativa, embora não seja muito complexa, como ocorre em muitos livros para crianças menores: Petting Zoo é a história de uma visita a um (mini-)zoológico. O enredo permanece aberto enquanto passamos por seus quadros, uma vez que não há palavras para guiar nossos olhos ou conter nossa imaginação em deriva.

A falta de palavras amplia o público do app, permitindo que crianças de diferentes contextos linguísticos e culturais brinquem com ele, como é o caso da minha filha, cuja língua nativa é o português. Quando ela brinca com o app Petting Zoo, ela projeta as palavras que está aprendendo sobre as imagens mostradas na tela do meu iPad, à medida que esta exibe os animais e suas caras engraçadas, suas formas e movimentos estranhos, reagindo aos pequenos dedos curiosos dela. Se houvessem palavras (que provavelmente seriam em inglês), o app seria menos aberto (se é que ainda seria aberto) aos relatos da minha filha sobre o que se passa com os animais. Com a criação de um livro de figuras sem palavras, Christoph Niemann e sua equipe - Jon Huang (desenvolvimento), Markus Wormstorm (design de música e de som), and Design Indaba (produção executiva)  - foram capazes de fazer da interatividade um campo de experimentação, cuja principal característica é sua abertura (pré-programada e restrita).

Um livro interativo: a deriva da imaginação

No relato de Christoph Niemann sobre como criou o app, ele conta que a ideia do mini-zoológico veio de sua experiência de jogar video-mage com seus filhos. Depois de descrever seu fracasso ao jogar um jogo regular de futebol, ele escreve:

Eventualmente, meus filhos cederam e me mostraram o modo de demonstração. Sem oponente, sem pontos, sem pressão. Todo o tempo do mundo para experimentar meus movimentos.

Eu percebi que aquilo era o que eu queria.

Comecei a pensar, "Qual é o equivalente na vida real do modo de demonstração de um video-game?” Um mini-zoológico! Um ambiente circunscrito. Um animal sem ameaça.

De fato, Petting Zoo é muito mais do que um livro de figuras. Cada transição entre os quadros animados representa uma transformação imaginativa de um animal em outro. Em cada quadro, o usuário pode realizar um conjunto de gestos pré-definidos que levam a diferentes resultados: um cachorro começa a dançar; um elefante toma um banho; um peixe é comido por outro peixe, que é comido por outro, e assim por diante.

Fonte: http://www.christophniemann.com/index.php/books/details/petting_zoo

Fonte: http://www.christophniemann.com/index.php/books/details/petting_zoo

As transformações - tanto dentro dos quadros quanto entre eles - são cruciais para minha fascinação em relação ao app Petting Zoo, e parece que as coisas vão na mesma direção quando se trata da minha filha e de sua experiência dos desenhos animados. Ela brinca com os animais, quadro a quadro, e frequentemente tenta ver o que está entre os quadros.

Enquanto os quadros tornam-se campos de experimentação, cuja interatividade permanece pré-programada, limitando as possibilidades de transformações realizadas pelo usuário, as transições abrem um espaço de deriva imaginativa, mesmo que efêmero, onde o usuário não pode intervir, mas onde ele ou ela pode, efetivamente, encontrar traços fascinantes de uma linhagem inquieta da história da arte, que proponho chamar imaginação surrealista. O surrealismo explora essa linhagem, escolhendo parte de seus traços e explorando-os dentro de comunidades e instituições artísticas, no contexto mais amplo do modernismo. Nesse sentido, o surrealismo é apenas uma das formas da imaginação surrealista. Esta pode ser vista em outros lugares e momentos também, como as incríveis pinturas de Giuseppe Arcimboldo, para dar um exemplo elucidativo. Os limites à experimentação pelo usuário dentro de cada quadro e os limites à intervenção do usuário entre os quadros definem as possibilidades da imaginação surrealista no Petting Zoo de Niemann.

A imageria racial e a política da representação

O quadro dos macacos jogadores de futebol, em Petting Zoo, de Christoph Niemann

O quadro dos macacos jogadores de futebol, em Petting Zoo, de Christoph Niemann

O que estou chamado de imaginação surrealista não é nem um reservatório a-histórico nem uma fonte transcultural de imagens. Em vez disso, pode ser concebido como uma pulsão de transformação de imagens e objetos uns nos outros, cujas manifestações são cultural e historicamente específicas. Como tal, a imaginação surrealista nunca está dissociada do complexo tecido da vida social, no qual ela rasga uma abertura em direção a alguma coisa totalmente diferente, em direção a outras formas de vida e a outras possibilidades de viver junto. Essa pulsão de transformação opera com (e dentro de) conjuntos de traços, formas e figuras culturalmente específicos.

Efetivamente, a imaginação surrealista pode ser definida como uma pulsão desconstrutiva que habita qualquer trabalho de imaginação, abrindo dentro dele um espaço de deriva imaginativa que não pode ser restringido pela lógica do discurso e pelas técnicas de representação de um dado espaço e tempo. Quando os animais do Petting Zoo de Niemann se transformam uns nos outros, vemos vislumbres da pulsão de transformação da imaginação surrealista e podemos vagar, em deriva, através de seus traços e rastros, ao menos por um momento, antes de voltarmos ao mini-zoológico e ao seu roteiro pré-programado.

A possibilidade de deriva torna ainda mais perturbador encontrar uma imagem - os macacos jogadores de futebol - que parece interromper qualquer pulsão desconstrutiva e exibir a domesticação da imaginação surrealista pela lógica discursiva e pelas técnicas de representação que compõem a imageria racial moderna. O quadro dos macacos jogadores de futebol lança luz sobre a relação entre a imaginação surrealista que opera entre os quadros (e dentro deles), por um lado, e a atual política da raça, por outro, especificamente suas formas e figuras imaginárias, entre as quais encontramos o tropo do sujeito negro como primata ou macaco, a metáfora do negro-macaco.

Se a imaginação surrealista pode revelar o inconsciente e suas muitas formas, como os surrealistas pensavam, precisamos reconhecer que, no app Petting Zoo, a associação livre (que não é de forma alguma livre de constrangimentos e contextos sociais, culturais e históricos) revela uma espécie de inconsciente racial, que opera sob a representação. Para continuar com o vocabulário psicanalítico, a imageria racial moderna e a metáfora do negro-macaco (que os macacos jogadores de futebol tornam visível para usuários de Petting Zoo) são conteúdos manifestos do trabalho de sonho do racismo.

Alguns signos desse inconsciente racial são também visíveis em alguns exemplos elucidativos. Em muitos esportes, inclusive o futebol, parece haver uma tradição (infelizmente longa) de ofensas dirigidas a jogadores negros (a maioria de países de Terceiro Mundo), por meio do lançamento de bananas e do uso de bananas infláveis. Num mundo de privilégio branco, no qual metáforas racistas do passado permeiam nossa cultura cotidiana a um grau que as faz parecer formas inocentes e naturais de imaginar a alteridade, representar macacos como jogadores de futebol, como ocorre no app Petting Zoo, equivale a reproduzir, mesmo que sem saber, a imageria racial que informa a tradição de ofensas contra jogadores negros em diversos esportes.

Sem dúvida, pode-se reproduzir representações sem aceitar seu valor de face. Reiterações críticas e subversivas da imageria racial moderna são parte do que torna as obras de arte de Lorna Simpson tão interessantes, por exemplo. Mas quando se trata de mídia interativa para crianças e de livros de figuras, qualquer reiteração pode e vai informar o imaginário e a identidade da criança, de formas que são ao mesmo tempo sutis e duradouras. Como pai, preciso lidar com a relação da minha filha com a imageria racial moderna que nos circunda. Eu quero que ela seja capaz de reconhecer sua condição de privilégio branco, enquanto também questiona a metáfora do negro-macaco e a imageria racial a que pertence, imaginando identidade e diferença além da linguagem de estereótipos que essa imageria sustenta.

Ao reiterar a metáfora do negro-macaco, o app Petting Zoo reproduz parte de uma imageria racial que tem uma longa história, e cujas formas fixas e estereótipos restringem as possibilidades da imaginação surrealista que confere ao app sua qualidade única. Mas podemos olhar para isso de outra perspectiva: a reiteração da imageria racial pode se tornar uma possibilidade de trazê-la à tona na conversação, seja entre pais e filhos ou entre os muitos adultos que adoram o app de Niemann (como é o caso aqui). Eu sou um deles, e é por isso que decidi escrever esse texto: quero começar uma conversação, não terminá-la. Vamos lá.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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