O racismo em Captain Phillips (2013)

Qualquer crítica de Captain Phillips (2013) permanecerá incompleta, talvez insustentável, se não considerar o racismo que estrutura a narrativa, sob a forma da inscrição racial do antagonismo dramático que a orienta. Antes do lançamento do filme, um cartaz de divulgação internacional (que pode ser visto abaixo) foi o responsável por acender o debate sobre as possíveis conotações racistas do filme de Paul Greengrass. O protagonista, Richard Phillips, interpretado por Tom Hanks, aparece entre uma arma, sustentada por alguém que permanece fora de quadro, mas que é sem dúvida um dos sequestradores, e os olhos arregalados no rosto ameaçador de outro dos piratas negros que conseguiram, pela primeira vez desde o século XIX, tomar de assalto um navio de bandeira estadunidense.

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Frequentemente, a atribuição de racismo a filmes e a outras formas de narrativa e de representação enfrenta uma objeção importante cujo alcance é, contudo, incompleto e parcial. Contra a atribuição de racismo, afirma-se muitas vezes que há uma diferença entre representar uma realidade racista e corroborar o racismo, como se fosse possível separar fato e valor, isolar ser e dever-ser, dividir as partes do descritivo e do prescritivo ou normativo, discernir, enfim, ontologia e deontologia, supondo que sejam campos incomensuráveis.

Diante da atribuição de racismo a Captain Phillips, essa objeção consistirá, provavelmente, na seguinte linha de argumentação: o filme de Paul Greengrass representa acontecimentos reais e, mesmo se constrói, a partir deles, uma ficção, ou se acrescenta a eles elementos assumidamente ficcionais, não altera alguns elementos factuais de base, como a predominância de brancos na tripulação do navio (a começar pelo protagonista e por todos os principais envolvidos) e a ausência de brancos entre os piratas da Somália, todos negros. Em outros termos, nessa argumentação, a contraposição entre brancos e negros que se evidencia na narrativa do filme decorreria apenas da fidelidade aos fatos e do realismo, e o filme não conteria qualquer tipo de julgamento sobre as personagens em sua condição racial, isto é, com base em sua cor de pele e em sua origem nacional.

Efetivamente, o racismo em Captain Phillips decorre da estrutura racista que organiza a geopolítica do mundo dito globalizado. Se o filme não corrobora o racismo que funda o sistema mundial contemporâneo, sua relação com ele não pode, contudo, ser reduzida ao conceito de representação. Em outras palavras, como imagem, o filme representa o racismo por meio da reiteração de seu código, de seu idioma, baseado na atribuição de valores e de significados simbólicos a diferenças fenotípicas. Ao reiterar o código do racismo, Captain Phillips converte o antagonismo que orienta sua narrativa em um antagonismo racial e, ao fazê-lo, faz do código do racismo a moldura dos julgamentos de valor que a narrativa incentiva.

Entre os brancos, Phillips permanece calmo e racional até o limite do que pode suportar, no final do filme, enquanto os militares que o resgatam são eficientes e justos, não cometem excessos e não se deixam levar por emoções. Os negros, por sua vez, estão sempre alterados pelo uso do khat, uma planta com efeitos estimulantes (similares aos da antetamina), na péssima condução do sequestro que realizam, sempre à beira do comportamento mais irracional, em meio à ausência de planejamento de sua ação e à incapacidade de controlarem suas emoções oscilantes e suas indecisões.

Se o antagonismo entre tripulação/militares e piratas, assim como entre Phillips e Muse, confere à narrativa sua estrutura dramática, o código racista que o constitui cria a necessidade de resolução. É preciso que o desfecho da narrativa resolva o antagonismo racial simbolizado pelas personagens de Phillips e Muse, e isso ocorrerá por meio da intervenção militar dos SEALs, que culmina na execução dos três amigos de Muse, Bilal, Najee e Elmi, e na prisão do líder.

Devido à conversão do antagonismo dramático em antagonismo racial, operada pelo código racista reiterado pelo filme, o modo de endereçamento de Captain Phillips promove a identificação racial como condição de possibilidade da experiência do espectador. A identidade racial do espectador torna-se fundamental para a fruição da narrativa e para a experiência do desfecho como distensão. Sem o racismo que constitui o mundo dito globalizado, cuja representação se esforça por construir de forma realista, o conflito dramático de Captain Phillips não encontraria resolução. A inscrição racial orienta o antagonismo dramático para o fim redentor do resgate militar, que devolve Phillips à segurança e à vida familiar. A nação estadunidense pode, enfim, se regozijar com sua avançada tecnologia de guerra e com a continuidade dos fluxos globais de capital, apesar dos piratas.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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