O Escritor Fantasma: especulações sobre terror e política

O Escritor Fantasma: especulações sobre terror e política
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O plano mais importante do filme O Escritor Fantasma (2010), de Roman Polanski, mostra um homem que tenta varrer e reunir num carro de mão uma multidão de folhas secas que o vento insiste em espalhar, uma e outra vez - como um prosaico Sísifo cuja pedra tem o peso insuportável da multiplicidade fragmentária, que impossibilita qualquer unidade e toda unificação, o peso sem lastro da areia de todos os desertos. Trata-se de um plano curto, dentro de uma sequência sem diálogos em que acompanhamos o protagonista - um ghostwriter sem interesse na política institucional, que nunca recebe nome algum - andando pela casa de Adam Lang - o ex-primeiro ministro britânico cuja biografia deve ser escrita por "seu fantasma" (como ele se apresenta a Lang). O olhar fantasmagórico que o filme de Polanski constrói - sobre a política e sobre as memórias do mundo em tempos de emergência do terror como categoria cosmopolítica central - se encontra inscrito, no plano do homem que varre as folhas, sob a forma do olhar do próprio fantasma: vemos o que seus olhos veem, ocupamos o seu ponto de vista.

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A fantasmagoria do olhar constitui um dos jogos mais importantes que o cinema propõe para qualquer espectador e O Escritor Fantasma põe em movimento uma máquina especulativa que o amplifica em múltiplas reverberações, fazendo-o ultrapassar as dimensões em que a retórica da narrativa clássica procura contê-lo. Entre os planos "objetivos", que não correspondem à visão de qualquer personagem, e os planos "subjetivos", em que vemos por meio do ponto de vista de algum personagem, é toda uma série de planos oblíquos - nos quais vemos por cima dos ombros das personagens, alternando com frequência campo e contracampo - que constitui a caução da transparência narrativa. Além de nos sujeitar ao jogo fantasmagórico da mobilidade de pontos de vista que marca a experiência cinematográfica, dentro das regras delimitadas pelo paradigma narrativo clássico, O Escritor Fantasma faz proliferar os sinais de que, em tempos de "guerra ao terror", a fantasmagoria está em toda parte: vemos sempre através de outros olhos, através de mediações intermináveis que se interpõem, como janelas bloqueadas por telas de televisão, entre nós e o mundo - da burocracia estatal às cadeias midiáticas, do "terror" à "guerra ao terror".

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Lang está sendo acusado no Tribunal Internacional de Justiça de Haia, sob alegações de que teria entregue cidadãos britânicos de ascendência árabe para a CIA, no contexto da "guerra ao terror" que os Estados Unidos e o Reino Unido levam adiante. É em torno dessa acusação e das especulações da mídia, do primeiro ministro britânico Richard Rycart e do ghostwriter (entre outros) sobre o assunto que o filme tece seu mistério e interroga, de forma sutil mas contundente, o problema político da verdade da "guerra ao terror". Os fantasmas do "terror" e da "guerra ao terror" constituem o pano-de-fundo invisível da narrativa, que está também repleta de elementos fantasmagóricos. A fotografia acinzentada, o figurino de cores escuras e o calculado suspense, que orienta tanto a encenação quanto a montagem, contribuem para dar uma atmosfera espectral aos acontecimentos. No entanto, a teleologia do suspense, que se orienta para a resolução do mistério, receberá de Polanski um tratamento singular.

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De início, o protagonista substitui o ghostwriter que estava encarregado da biografia de Lang, Mike McAra, após seu corpo aparecer numa das praias de Heathrow, ilha em que se encontra a casa de Lang. O importante é que o protagonista sem nome não é apenas, como afirma mais de uma vez, o "fantasma" de Lang, mas também o fantasma de McAra: acaba se instalando no mesmo quarto que o outro ocupava na casa de Lang e ali encontra algumas roupas e objetos de uso pessoal de McAra, assim como informações cruciais sobre Lang e seu passado, sobretudo sua conexão com Paul Emmett, que sugere uma ligação direta com a CIA. As suspeitas a respeito de Lang proliferam diante do ghostwriter que, de uma posição privilegiada (porque ambivalente), acompanha o desenrolar dos acontecimentos na mídia e, ao mesmo tempo, investiga o passado do ex-primeiro ministro, descobrindo aos poucos suas possíveis conexões com a CIA. Nós acompanhamos suas descobertas, suas dúvidas e a tensão crescente em que se encontra, assumindo fantasmagoricamente seu ponto de vista dramático (e apenas eventualmente seu ponto de vista ótico) e prevendo, dentro das regras de gênero a que o filme parece corresponder, a revelação final do mistério e a resolução redentora do dilema que envolve. À medida em que acompanhamos o ponto de vista dramático do ghostwriter, porém, somos levados a uma situação que se revelará, ao final, problemática em inúmeros sentidos, pois implica um tensionamento da teleologia narrativa e das regras de gênero. Uma retórica da transparência opera em todo o filme para expor as coisas de forma literal, mas é como se fosse impossível montar todo o quebra-cabeças da realidade e toda transparência resultasse infinitamente labiríntica. É a teleologia de todo filme de suspense - que se orienta para a salvação do mundo, isto é, para a resolução do mistério e para a organização das peças do quebra-cabeças numa imagem (re)unificada do mundo, que pode assim (re)tomar a forma de uma unidade coesa - que se encontra em crise na narrativa de O Escritor Fantasma.

A princípio, o trabalho de investigação do ghostwriter não parece levá-lo a descobertas muito significativas. Após fugir de homens que, ao que tudo indica, estão ligados a Paul Emmett, à CIA e à morte de McAra, ele chega a cooperar com Rycart, atual primeiro ministro e responsável por levar a acusação a Lang adiante em nome dos direitos humanos. Depois de o ghostwriter levar a Rycart o original escrito por McAra, que deve conter a chave do enigma em seu início, segundo o mesmo indicou, nenhum deles consegue desvendar os sinais misteriosos. É apenas quando, após um atentado contra a vida de Lang, a biografia é finalmente lançada que, sem esperar novas descobertas, o ghostwriter decifra o enigma, ao ouvir a ex-assistente e amante de Lang afirmando que os americanos estavam preocupados com "os inícios" (e ela enfatiza o plural). A junção das palavras iniciais de cada capítulo dos originais de McAra revela que é Ruth, a insuspeita esposa e agora viúva de Lang, quem pertencia à CIA e havia, junto com Paul Emmett, manipulado Lang. O ghostwriter escreve a frase que reúne os fragmentos da verdade num papel e o encaminha a Ruth, revelando a ela que sabe o segredo e deixando, em seguida, o espaço em que ocorre o lançamento, com o original em mãos. Paul Emmett impede Ruth Lang de ir atrás do ghostwriter que, no último plano do filme, acaba atropelado, fora de campo. Em seguida, as folhas do original com os fragmentos da verdade voam pelos ares.

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Pode-se dizer que a teleologia se realiza apenas de forma fantasmagórica. Tudo se passa como se o plano do homem que varre as folhas antecipasse, numa cifra, o destino do ghostwriter. As especulações que o levam à resolução do mistério pela reunião dos fragmentos da verdade são silenciadas com a sua morte, deixando aos espectadores uma posição potencialmente incômoda. Conhecemos a verdade mas isso não muda nada, não há salvação possível, o mundo não se recompõe numa imagem renovada e unificada. É uma verdade fantasmagórica, sem lastro, a que nos apegamos como se fosse magicamente permitir a montagem do quebra-cabeças. Quando o terror emerge ao patamar de categoria central das cosmopolíticas contemporâneas, a pedra de Sísifo que devemos carregar possui o peso sem lastro de um deserto. Eis o deserto do real.

Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade. Já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e coordenador do Cineclube Culturama, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos, na Universidade Federal de Goiás. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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