Entre-imagensMarcelo Ribeiro

Metropolis, Henschel, fantasmagoria

Entre-imagensMarcelo Ribeiro
Metropolis, Henschel, fantasmagoria

Me pergunto se não há mais do que uma coincidência entre a remasterização de Metropolis (1927) de Fritz Lang, com a colorização e a sonorização, inclusive a dublagem, de todo o filme, e a colorização de fotografias de pessoas escravizadas retratadas por Alberto Henschel.

Talvez o estranhamento que mais facilmente sentimos diante do filme de Lang deva se projetar também sobre as fotografias em que, a partir de agora, será possível encontrar as cores que Marina Amaral atribuiu às suas superfícies.

Mais conhecido, Metropolis em preto e branco é evidentemente diferente do filme remasterizado, e essa diferença é a de uma metamorfose extrema, e as cores e o som podem ser reconhecidos nitidamente como enxertos, objetos deslocados, acréscimos estranhos à forma fílmica.

O filme colorizado e sonorizado se torna nitidamente artificial, evidentemente derivado do Metropolis original, tal como o conhecíamos já em um processo de derivações entre versões em preto e branco. Em todo caso, a remasterização é o não original, o artifício e o truque.

Menos conhecidas, as fotos em preto e branco de Henschel parecem ser objeto de uma recepção invertida quando colorizadas por Marina Amaral, como se as cores fossem capazes de restituir uma verdade mais profunda que as imagens originais não podiam acessar.

As fotos colorizadas por Marina Amaral se convertem, de forma paradoxal, em imagens fantasmaticamente mais próximas da origem do que as fotos de Henschel. O artifício parece estar nos originais, enquanto a realidade emerge novamente das cores restituídas.

Por isso, justapor a remasterização de Metropolis e as colorizações das fotos de Henschel pode permitir explicitar, mais criticamente, que não há origem a ser restituída, que não há força de presença que se possa reencontrar em imagens, do passado ou do presente, sem fantasmas.

Encontrar o mesmo estranhamento em Metropolis remasterizado e em Henschel colorizado pode ser uma maneira de lembrar que, em ambos os casos, está em jogo uma metamorfose radical, que é sempre um afastamento de qualquer suposta origem. Não há origem. Há apenas derivação e deriva.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.