Melodrama, carnaval, racismo

Ainda quero compartilhar os materiais de aula como arquivos reutilizáveis, em alguma licença aberta para acesso livre, talvez em domínio público. Enquanto isso, seguem as fotografias das anotações de cada aula.

Falar de matriz melodramática e matriz carnavalesca pode ser uma forma de esquematizar a história do cinema, se as compreendemos em uma oposição dicotômica. Se entendemos, em vez disso, que melodramático e carnavalesco se relacionam dialeticamente, dentro de um campo instável formado por diversas linhas de força (outras matrizes: a tragédia, o realismo etc.), podemos compreender de modo mais complexo o melodramático no interior do carnavalesco, e o carnavalesco no interior do melodramático.

(Na história do cinema, um dos nomes desse colapso da separação entre melodramático e carnavalesco, cujo redemoinho suga outras matrizes, como o realismo, é Grande Otelo.)

Observando a heterogeneidade da matriz melodramática, encontramos em Hollywood e no chamado "cinema clássico" um paradigma imponente, cujo poder é inseparável, por exemplo, do racismo e do puritanismo que marcam o Código Hays, tal como este código de produção define formas de (auto-)censura dominantes entre 1934 e meados da década de 1950, e vigentes como referência até 1968.

Ancorada na matriz carnavalesca, por sua vez, a chanchada (tal como se mobiliza esse termo desde os anos 1960 e 1970 para designar um corpus heterogêneo de comédias musicais, filmes de carnaval etc.) revela uma dinâmica comparável em relação ao racismo e à segregação como princípio formal, nos termos de Luis Felipe Kojima Hirano (artigo, artigo, livro). Entretanto, a proibição da miscigenação no contexto hollywoodiano se transforma em comédia ambivalente e riso perverso no contexto brasileiro, marcado pela ideologia do embranquecimento e por seu elogio ambíguo da miscigenação.

(Na história do cinema, um dos nomes da potência perturbadora que, como agenciamento subalterno, insinua possibilidades de transbordamento da captura racista nos discursos da miscigenação, no Brasil, é Grande Otelo.)

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.