Logorama II: marcas
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As paisagens sintéticas da produção francesa que ganhou o Oscar de 2010 na categoria de curta-metragem de animação podem ser vistas como caricaturas (se não, em alguns casos, retratos realistas) das paisagens urbanas em que vivemos, cada vez mais tomadas por cartazes e telas dos mais variados tamanhos, atravessadas por ações de marketing e publicidade cujo horizonte não é um produto ou serviço, mas a marca. No contexto da emergência do branding à posição de centro de gravidade de toda atividade especulativa - seja no sentido de especulação intelectual, seja no sentido de especulação financeira - é nas marcas que o capitalismo contemporâneo concentra seus investimentos, na medida em que o capital se converte em espetáculo e sua dimensão simbólica se hipertrofia. Ao fetichismo da mercadoria, que marca o capitalismo da produção e do consumo industriais, acrescenta-se um suplemento que constitui o cerne do capitalismo financeiro e especulativo: o fetichismo das marcas. Articuladas, essas duas formas de fetichismo configuram os horizontes imaginativos e afetivos de nosso tempo.

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De forma sintomática, Logorama desencadeia com frequência comentários sobre direitos de propriedade. Afinal, em seus 15 minutos, o curta-metragem parece ter infringido as restrições legais ao uso de logomarcas de mais corporações do que qualquer um é capaz de contar. Com efeito, assim como as marcas registradas que aparecem no curta, talvez sejam incontáveis as leituras do procedimento de apropriação das logomarcas para a construção da narrativa de uma perseguição policial, que interrompe o cotidiano de uma cidade até que irrompe uma catástrofe com ares de apocalipse. Em todo caso, tudo se passa como se a apropriação das logos corporativas reiterasse o fetichismo das marcas até o limite de sua perversão.

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Se a aparição de logomarcas em produções cinematográficas constitui um recurso publicitário - que é eficaz, talvez, apenas na medida de sua sutileza, e que se converte numa espécie de jogo de caça para alguns espectadores, ávidos por reconhecer e identificar cada aparição publicitária no interior de um filme - o que se passa em Logorama é a abertura de um espaço-tempo fantasmagórico de disseminação, no qual se projeta um mundo invertido, em negativo, diante do qual se trata de reconhecer e identificar, em meio à avalanche de logomarcas, os rastros de alguma realidade, de alguma narrativa. Enquanto à construção visual do filme corresponde o fetichismo das marcas, à sua construção dramática correspondem alguns dos esquemas narrativos que se tornaram dominantes a partir da herança de Hollywood: o filme de perseguição se encontra com o filme de catástrofe.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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