Logorama I: paisagens

Talvez nas paisagens se tornem legíveis os sinais dos tempos: os caminhos que aram a terra são como as rugas no rosto do mundo.

Quando o mundo se transforma numa orbe cuja economia geral assume predominantemente a forma de um sistema regrado pela economia restrita do capital, tornando-se possíveis discursos em nome da globalização ou mundialização, é no espaço e no tempo das cidades que virão se reunir os rastros da emergência de novas formas de comunidade política. Tudo se passa como se as urbes constituíssem o fórum em que se projetam os contornos e os caminhos da orbe.

A questão da representação se revela crítica na medida em que a própria representação se desvela em crise (e toda sua efervescência espetacular advém de seu estado crítico). Por um lado, proliferam formas de figuração do mundo como imagem, como cena, como quadro, que constituem a matéria-prima de toda e qualquer consciência planetária da humanidade. Por outro lado, proliferam estruturas de substituição, procuração e ventriloquismo, que constituem a caução de toda e qualquer relação política e que encontram na democracia representativa sua mais profunda razão de ser. A crise da representação está relacionada a um curto-circuito entre as duas dimensões da representação - a figurativa e a substitutiva, a estética e a política: a estetização da política e a politização da estética (para usar as expressões de Walter Benjamin) aprofundam, na forma de uma aparente polarização, a intimidade espetacular que reúne a estética e a política.

O curto-circuito da representação sob a forma de espetáculo se articula à difusão de dispositivos de captura da imaginação, que encontram sua base em tecnologias e em suas variadas formas de institucionalização como aparelhos semióticos - da imprensa às redes de computadores. Hoje, no cerne da orquestração dos dispositivos de captura da imaginação, encontram-se as corporações cujas logomarcas, frequentemente personificadas por figuras antropomórficas ou zoomórficas, são as protagonistas, compõem os cenários e delimitam a diegese de Logorama (2009).

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Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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