Instinto Materno (2013), de Călin Peter Netzer

Um drama familiar e político

Pozitia Copilului, título original de Instinto Materno (2013), de Călin Peter Netzer, pode ser traduzido como “posição do bebê”. A expressão assume diversos sentidos na narrativa protagonizada por Cornelia Keneres (interpretada por Luminita Georghiu), mãe sexagenária de um homem de cerca de 30 anos, Barbu (Bogdan Dumitrache), que enfrenta a possibilidade de ser condenado à prisão depois de, dirigindo acima do limite de velocidade, ter atropelado um garoto de 14 anos.

O título em português enfatiza a posição da mãe. A ideia de “instinto” permite associar suas ações na trama a um intuito profundo de proteger o filho. De fato, Cornelia procura proteger Barbu das consequências de seus próprios atos, por meio de uma série de tentativas de retomar o controle que julga ter perdido sobre a vida do filho. A “posição do bebê” a que se refere o título original pode ser entendida como a posição de Barbu, em relação de dependência com sua mãe.

O título original ultrapassa, porém, a esfera privada e desdobra sua força metafórica no âmbito das relações sociais representadas na narrativa. Ao ressaltar a posição dramática de uma criança indeterminada, cujo nome permanece indeterminado (será Barbu, o filho de Cornelia, ou será Mihai, o garoto atropelado?), o título Pozitia Copilului amplifica os sentidos da narrativa. Não se pode reduzir o melodrama encenado por Netzer a uma história da vida privada. Seus sentidos são, igualmente, políticos, pois sua narrativa revela aspectos da Romênia contemporânea e interroga, com a metáfora da “posição do bebê”, as possibilidades da vida em comum.

A câmera instável e a ausência de música dramática aprofundam o realismo naturalista das atuações e conferem à encenação de Netzer uma textura áspera. O melodrama a que a temática associa o filme se rarefaz no excesso realista da forma. A transparência clássica dá lugar a uma opacidade, cujo sentido profundo é moral: ao encenar as intensidades múltiplas dos sentimentos das personagens, o filme não oferece o código de sua decifração, e os sentimentos restam instáveis em seus sentidos fundamentais.

No diálogo final de Cornelia com os pais de Mihai, o tema metafórico da “posição do bebê” alcança sua formulação mais densa, sob a forma da contraposição entre as recordações de Cornelia sobre a vida de Barbu e os sonhos interrompidos da mãe de Mihai para seu filho. A posição de cada “bebê” aparece como uma função de seu posicionamento social distinto, e o sentimento de perda se distribui entre as famílias, entendidas como representações de classe social, numa partilha desigual que se revela, paradoxalmente, o fundamento da vida em comum.

A desigualdade social que separa Barbu e Mihai conduziu, em primeiro lugar, a suas diferentes possibilidades de inserção nas redes de corrupção e de favores que atravessam a sociedade romena e a burocracia de seu sistema jurídico. De fato, o tema da burocracia parece constituir um motivo recorrente na nova onda do cinema romeno, a que pertence o filme de Netzer, ao lado de A morte do Sr. Lazarescu (2005), de Cristi Puiu, e de 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), de Cristian Mungiu.

Escrito por Netzer em parceria com Razvan Radulescu (que participa também da elaboração dos roteiros dos filmes citados acima), o roteiro de Instinto Materno vincula a corrupção à burocracia, cuja representação cinematográfica pretende ter um efeito similar ao da representação da relação entre mãe e filho, segundo afirma o diretor, em entrevista recente: “É como uma catarse, é terapêutico, se quiser”. À terapia familiar que se articula na dimensão melodramática do filme acrescenta-se a terapia social que se articula na sua dimensão política.

A intenção catártica e terapêutica aparece, no filme, sob as formas múltiplas dos sentimentos, encenados de modo realista e naturalista, mas explorados com tanta intensidade que transbordam o enquadramento melodramático. Em vez de constituir o fundamento da transparência da narrativa, oferecendo sentidos morais facilmente identificáveis para o espectador, o excesso de realismo naturalista de Instinto Materno confere aos sentimentos a opacidade que possuem na vida, a instabilidade que os atravessa na medida em que constroem os horizontes disjuntos da vida em comum.

exto publicado na edição de 15 de março de 2014 do jornal O Popular, de Goiânia.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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