Imagens da Terra em transformação, 1984-2012

Ontem, o blog oficial do Google anunciou a publicação de uma série de imagens da Terra no decorrer do período de 1984 a 2012. As imagens podem ser conferidas na Earth Engine, assim como na página do Google Earth no Plus e fazem parte do projeto Timelapse, da revista Time.

É impressionante acompanhar as transformações de diferentes regiões do planeta, como uma área da Amazônia, em Rondônia, em que o desmatamento assume uma condição de incomensurável visibilidade, por meio do olhar do satélite. O verde se rarefaz, abrindo, em meio ao tom mais escuro que representa a densidade da floresta, o clarão desbotado e fantasmagórico que se pode atribuir aos luminosos padrões retilíneos do desenvolvimento e do progresso.

O derretimento da geleira Columbia, no sul do Alasca, revela a dimensão a que o problema do aquecimento global está conduzindo o planeta. Cromaticamente, o movimento é inverso em relação ao da imagem da Amazônia: o branco dá lugar ao verde e ao azul. A luminosidade cintilante do gelo se retrai, desvelando cores e formas antes inexistentes. A exuberância que se adivinha na vegetação assim revelada constitui, contudo, o índice de transformações mais amplas, cujo fantasma assombra a imagem, mesmo que deixe rastros difíceis de reconhecer em sua superfície.

Apesar da inversão cromática entre as duas imagens, o que representam remonta ao mesmo processo global de degradação do meio ambiente, que afeta diferentes regiões do planeta de formas diferentes, mas correlacionadas. Com seu alcance global, planetário, o olhar do satélite registra a diversidade de efeitos, em localidades diferentes, da destruição a que a Terra tem sido submetida.

No olhar do satélite, cujos usos técnico-científicos são cruciais para as formas atuais de monitoramento institucional (governamental e empresarial, político e comercial) da superfície terrestre, é possível encontrar os traços fundamentais do modo de constituição da consciência ambiental – de toda consciência ambiental, na medida em que é consciência.

Entre as mais importantes características da consciência ambiental, que o olhar do satélite revela, está seu fundamento espectral. A consciência ambiental é, antes de tudo, uma fantasmagoria. Sem corpo, como o olhar do satélite, seu espectro ronda o mundo contemporâneo, assombrando suas paisagens com diversas aparências.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.