Film Socialisme: imagina o silêncio
 "O silêncio é de ouro." "Le silence est d'or."

 "O silêncio é de ouro."
"Le silence est d'or."

Há um provérbio hebraico, originário do Talmude, que diz: "A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro." ("La parole est d'argent, mais le silence est d'or."). Como um eco, a certa altura do primeiro mo(vi)mento de Film Socialisme, um garoto cochicha na orelha de Alissa a frase final do provérbio.

Na representação cinematográfica do mundo, a aparência da imagem como superfície significante se converte numa alucinação coletiva que, assim como o dinheiro, recebe um investimento compartilhado de valor. Seria preciso reconstituir um caminho que liga as ciências modernas da significação à lógica da economia e à crítica da economia política que passa por Marx. Esse caminho do pensamento é que faz com que, em Film Socialisme, por exemplo, uma coisa possa funcionar como metáfora da outra: o dinheiro e o signo, o valor e a significação.

Uma breve digressão pode ser interessante aqui. Num belo texto sobre o tema da moeda falsa na obra de César Aira, Kelvin Falcão Klein escreve:

O que isso pode querer dizer? Inúmeras coisas. A primeira delas e talvez a mais interessante: o questionamento de uma alucinação coletiva. O dinheiro é uma abstração compartilhada, pedaços pintados de papel aos quais atribuímos valor. O dinheiro falso é também uma abstração, algo que diz respeito diretamente àquilo que circula mas que guarda uma diferença monstruosa, pois, ao mesmo tempo em que compartilha da alucinação, desmente a sua efetividade. O dinheiro falso é um choque de realidade naquilo que se convencionou chamar realidade – ou ainda: o dinheiro falso é tão ficcional quanto o dinheiro verdadeiro, mas, em sua queda, em seu desvelamento, na descoberta de seu procedimento, o dinheiro falso expõe a sua construção e o absurdo da matriz da qual se origina, ela também uma ficção. Grosso modo, o dinheiro falso para Aira é uma oportunidade de confrontar a literatura com o real.

Ao desconstruir a chamada "linguagem cinematográfica" e até mesmo a própria linguagem verbal como recurso expressivo, Godard fratura as sintaxes do verbo e da imagem que dão a ilusão de um mundo unificado como um tecido regular e coerente. Em Film Socialisme, o verbo e a imagem operam como moeda falsa: alimentando a economia da representação e da linguagem, compartilham seu caráter alucinatório e ao mesmo tempo revelam a falsidade de suas tramas e a ineficácia de toda linguagem diante da realidade. Por exemplo: o verbo "ser" (être) aparece mais de uma vez como índice da falta de realidade e representa o limite mesmo de toda linguagem para apreender o mundo. No limite da linguagem, torna-se necessário aprender a escutar e perscrutar o silêncio e, em primeiro lugar, os silêncios que as imagens resguardam em suas superfícies, como pequenas tumbas ou pequenos úteros. É nos silêncios das imagens que se adivinha o ouro sem brilho da moeda falsa e, talvez, algum rastro ínfimo e monstruoso da vida que pulsa na realidade.

Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade. Já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e coordenador do Cineclube Culturama, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos, na Universidade Federal de Goiás. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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