Cortinas fechadas: alegoria da insurgência

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Cortinas fechadas (2013), de Jafar Panahi e Kambuzia Partovi, é uma alegoria indecisa composta por metáforas exageradas.

Na indecisão da alegoria, reside grande parte de seu interesse, que está associado à irredutibilidade dupla da obra à referência literal do contexto que a motiva e à deriva simbólica em que mergulha, como as personagens que se dirigem ao Mar Cáspio, diante do qual está a casa de praia de Panahi em que a câmera permanece presa.

Por um lado, Cortinas fechadas procura ultrapassar – por meio do silêncio que dedica a ele, de sua não nomeação explícita, de sua rarefação sob a forma de metáfora e de alegoria – o contexto da condenação de Panahi a 6 anos de prisão domiciliar e a 20 anos de proibição de fazer filmes, de escrever roteiros, de sair do Irã e de conceder entrevistas, como explica o diretor em Isto não é um filme (2011).

Por outro lado, as metáforas e a alegoria que atravessam a trama da obra instauram um regime simbólico de interpretação que, contudo, não chega a se fechar ou a se revelar em seu sentido pleno, restando ao espectador a tarefa impossível de decifrar o código indeciso de sua construção.

Parte do fascínio e do prestígio de Isto não é um filme e de Cortinas fechadas decorre da clandestinidade em que Panahi encontra alguma possibilidade de expressão, algum refúgio no exílio de si a que foi condenado, alguma fuga da perseguição política de que se vê refém, ao menos, desde 2010.

De fato, para o diretor, fazer cinema parece ser uma forma de terapia, mesmo sem fazer filmes: cada obra se revela inacabada, interminável, mas terminada, isto é, assinada e publicada, premiada e consagrada, na urgência da denúncia ao desrespeito da liberdade de expressão perpetrado pelo governo da República Islâmica do Irã.

Assim como a configuração documentária que organiza a encenação de Isto não é um filme se abre, por meio da ficção, à potência da imaginação, a consistência ficcional que atravessa Cortinas fechadas se desdobra, por meio de um registro em forma de documentário, na abordagem metalinguística e, portanto, distanciada e rarefeita, da realidade.

De um lado, o documentário se faz ficção, deixando-se habitar pela reivindicação da imaginação característica da ficção. De outro, a ficção se faz documentário, interrompendo seu fluxo e fraturando o fechamento circular em que parecia anunciar seus sentidos.

No exagero das metáforas, adivinha-se a incompletude de Cortinas fechadas, como se fosse preciso preencher com um excesso de sentido aquelas indecisões da alegoria. As lacunas da trama, as opacidades da simbologia e os vazios da fábula narrada são transbordados pelo excesso metafórico, cuja interpretação se torna, dessa forma, necessariamente equívoca, trêmula, incerta.

Parte do sentido das metáforas parece se concentrar naquela dimensão terapêutica que o cinema assumiu para Panahi. Nesse sentido, as duas personagens principais parecem ser espelhos em que o diretor pode reconhecer traços de si mesmo, tornando possíveis leituras de cunho psicológico ou psicanalítico de Cortinas fechadas.

Há, em primeiro lugar, um escritor (interpretado por Kambuzia Partovi), que chega à casa no início da narrativa, com um cachorro que se chama Menino escondido na mala, e que se dedica a escrever apenas depois de fechar todas as cortinas e de cobrir as janelas com panos escuros; em sua figura receosa e insegura, revela-se uma metáfora do retraimento, do medo e da reclusão, assim como da persistência subterrânea do desejo de criar.

Há, em seguida, Melika (interpretada por Maryam Moqadam), a mulher que busca refúgio na casa, junto com seu irmão, depois de fugirem da polícia, e que permanece ali depois, enquanto ele parte em busca de um carro; em sua figura impulsiva e inquieta, revela-se uma metáfora da insurgência, da resistência e da inconformidade.

A entrada em cena de Panahi, que atravessa os mesmos espaços em que circulam o escritor e Melika, não conduz a nenhum confronto dramático, mas delimita uma virada metalinguística. Sem habitar os mesmos planos, Panahi, o escritor e Melika permanecem em uma espécie de diálogo silencioso, em que o espaço da casa de praia se converte em uma geografia psíquica, uma metáfora da mente de Panahi.

Uma vez que a casa se converte em metáfora da mente, o título Cortinas fechadas assume uma instigante polissemia. Na narrativa, as cortinas são, literalmente, o que permite que o escritor tente se fechar, junto com o cachorro, em relação ao mundo. Na deriva metafórica da simbologia que atravessa a narrativa, as cortinas tornam-se signos alegóricos cujo itinerário dramático assume sentidos políticos.

De certa forma, as cortinas fechadas representam um espetáculo interrompido, como um teatro cujas cortinas se mantêm fechadas, sem confrontar a proibição imposta pela censura. Nesse sentido, as cortinas atiradas ao chão por Melika podem ser entendidas como uma metáfora da continuidade do espetáculo, a despeito do poder censório.

Além de cobrirem as janelas, as cortinas e os panos velam algumas das paredes da casa, nas quais Melika, ao atirar os panos ao chão, revela estarem pendurados cartazes de filmes de Panahi. Apesar de serem frequentemente lidos como um signo de auto-congratulação e de narcisismo, os cartazes podem ser compreendidos de outra forma se forem concebidos como parte do cenário mental de Panahi, representado metaforicamente pelo espaço da casa.

Nos cartazes, o que está em jogo não é a paixão de Panahi por seu próprio reflexo, como sugere a comparação com Narciso deslumbrado com sua própria imagem refletida no lago, mas a busca de alguma imagem onde se encontrar. Assim como as personagens do escritor e de Melika representam espelhos de traços de Panahi, dividido entre o cuidado receoso e a resistência, entre o retraimento e a insurgência combativa, os cartazes representam a memória de sua obra.

A divisão subjetiva que caracteriza o embate entre as duas personagens se reproduz em relação aos cartazes e à memória que representam. É preciso, por um lado, proteger a memória da obra de Panahi nas sombras, dentro da casa (como faz o escritor, ao tentar fechar o espaço doméstico contra as intempéries do mundo, para poder continuar escrevendo). É preciso, por outro lado, tornar visível a memória inscrita nos cartazes, entre as luzes do mundo (como faz Melika, ao abrir uma fratura dentro da casa, na qual o mundo insiste em se fazer presente, incontornável, perturbando a criação, a escrita, a narrativa e sua simbologia).

Os conflitos entre as personagens e a oscilação entre guardar a memória ou torná-la visível não são, contudo, meras fantasias, aprisionadas na mente de Panahi. De fato, um de seus vizinhos se mostra preocupado com as luzes acesas na casa na noite anterior à chegada do diretor, com a janela quebrada e com a tranquilidade de Panahi, que não quer fazer qualquer denúncia ou reclamação à polícia.

Quando Cortinas fechadas chega ao fim, com a janela e a casa devidamente arrumadas, as cortinas permanecem abertas, enquanto Panahi fecha o portão e se afasta em direção à orla, refazendo o caminho que o plano inicial do filme mostrara o escritor atravessar. A simetria aparente esconde a profunda disjunção entre a encenação ficcional que dera ao filme seu impulso inicial e a encenação documental que circunscreve sua última parte. A câmera permanece dentro da casa. O mar se avoluma ao fundo, enquanto o carro de Panahi sai de quadro. As metáforas exageradas permanecem opacas, enquanto a indecisa alegoria política da narrativa espera alguma forma de decifração.

 

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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