Como analisar um filme? O caso da cinemetria

Como analisar um filme? O caso da cinemetria

É impossível responder à pergunta que dá título a esse texto em termos gerais. Há incontáveis modos de se analisar um filme, e a diversidade de abordagens e de interpretações que se evidencia quando críticos, analistas e espectadores em geral falam do mesmo filme pode ser entendida como a demonstração acabada de que podem existir tantos filmes quanto há pessoas dispostas a compreendê-los.

Seja como for, entre as possibilidades de elaboração de análise de filmes, uma abordagem cada vez mais reconhecida pela sua relevância, embora ainda objeto de questionamentos sobre seus pressupostos e suas limitações, é a cinemetria, que corresponde à aplicação de métodos de quantificação de características do estilo cinematográfico, como a duração dos planos, as escalas de enquadramento, os movimentos de câmera, entre outras.

Não pretendo discutir aqui o que está em jogo no cálculo de médias, na elaboração de estatísticas e na computação de dados de análise, seja de filmes isolados, seja de conjuntos de filmes. Penso que a cinemetria é mais útil para o estudo de mais de uma obra, para descobrir repetições e regularidades, do que para a análise de um filme tomado de forma isolada. Em todo caso, os números oferecem apenas informações fragmentadas, cuja verdadeira relevância depende da interpretação que será proposta pelo analista, por meio da reunião dos fragmentos de informação quantitativa em um quadro conceitual, em que os problemas são de pesquisa qualitativa. Suponho, aliás, que quadros conceituais diferentes podem conduzir a formas diferentes de reunir os dados da informação quantitativa obtida pelos métodos da cinemetria.

Se você lê inglês, pode obter mais informações no site Cinemetrics. Além de poder entender como um teórico da importância de David Bordwell entende a cinemetria, ou como Warren Buckland define a "análise estatística de estilo", entre outras referências importantes para começar a discutir as possibilidades e os limites desse tipo de método de pesquisa, você encontrará ferramentas de análise, que pode instalar e rodar no seu computador (se o sistema operacional for o Windows ou se você puder rodar pacotes executáveis .exe na sua instalação do Linux ou do Mac OS X) ou então utilizar na versão online (que exige acesso à internet e não possibilita abrir ou salvar análises parciais).

Um dos recursos mais interessantes do site Cinemetrics é o banco de dados, que contém milhares de contribuições de usuários de todo o mundo. É uma excelente fonte de dados para uma pesquisa exploratória, talvez até mais do que isso, mas é preciso estar atento a eventuais imprecisões ou problemas nas análises, que são enviadas por interessados (há uma discussão no fórum do site sobre a exatidão dos dados).

Nas entradas do banco de dados, como esta aqui (sobre Viagem à Lua, de Georges Méliès), há dados sobre a duração média dos planos (average shot length, ASL) e outras informações matemáticas, assim como a decupagem plano a plano de cada título (filme, episódio de série de TV etc.) analisado. O nível de detalhes a que as análises podem chegar é bastante profundo, pois existe a possibilidade de fazer anotações para cada plano identificado na decupagem.

Se você está às voltas com alguma pesquisa sobre cinema, se está estudando um filme, a obra de um diretor ou um movimento cinematográfico, a cinemetria pode oferecer possibilidades inesperadas de compreensão do seu objeto de estudo, de modo a permitir que aspectos novos de sua forma sejam percebidos. Se você tem ressalvas sobre métodos quantitativos nas humanidades, ou problemas filosóficos com o tipo de pressuposto sobre o cinema que acompanha esse tipo de análise, penso que é fundamental explicitar as questões, sem descartar antecipadamente a cinemetria. Nos números, afinal, há também poesia. Resta-nos aprender a descobri-la.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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