Cinema e História [2019.1]: cronograma e linhas de fuga

Imagem destacada: recorte da obra Angelus Novus (1920), de Paul Klee, que é citada por Walter Benjamin em suas teses “Sobre o conceito de história” (ou “da história”, conforme a tradução).

Depois de uma primeira experiência muito boa em 2018.2, retomo a abordagem do meu projeto de pesquisa atual, Imagem e direitos humanos, em uma das disciplinas que ofereço na Facom-UFBA durante o semestre letivo 2019.1, Cinema e História (COM 324). Após alguns ajustes, divulgo abaixo o cronograma que espero realizar. Se quiser ver as referências bibliográficas e outras informações, acesse a página do curso ou baixe diretamente essa versão do programa completo em PDF.

O que me interessa nesse curso é tanto revisitar o itinerário empírico da minha pesquisa de doutorado, cujo tema foi cinema e direitos humanos, quanto experimentar outras derivas, que retomam, complementam e expandem aquele itinerário, por meio de uma deriva suplementar relacionado ao meu projeto de pesquisa em andamento. Esse movimento duplo percorre o cronograma como uma série de idas e vindas entre filmes e textos, buscando evidenciar que o suplemento derivativo não é secundário em relação às questões da pesquisa anterior.

No doutorado, parte do que me ocupou dizia respeito às imagens capturadas pelos exércitos aliados durante o processo de abertura e liberação dos campos de concentração e de extermínio do Terceiro Reich alemão. O problema que interroguei então, e ao qual retorno com a oferta dessa disciplina, é o das modalidades de relação com essas imagens dos campos na história do cinema.

Especificamente, no núcleo da tese que defendi (a qual ultrapassava esse recorte, incluindo também alguns textos publicados no decorrer do doutorado e relacionados ao seu tema), discuto as condições de aparição e de exposição dessas imagens, considerando sua relação com o processo de reconfiguração contemporânea dos direitos humanos e dos discursos sobre direitos universais, que culmina na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948.

Em seguida, diferencio três formas de relação com essas imagens, que constituem parte fundamental do arquivo dos campos. O rearquivamento ficcional reitera sua condição de arquivo. A postura anti-arquivo e sua recusa das imagens dos campos constituem uma denegação, no sentido psicanalítico. A destinação das imagens a novas e diferentes formas de remontagem, a cada vez, intensifica e experimenta com o que denominei abertura anarquívica.

Ao revisitar o itinerário que, com base no estudo analítico mais ou menos aprofundado de algumas obras que me pareceram cruciais, articula as ideias acima sobre arquivo, anti-arquivo e anarquivo, optei por retornar a alguns dos filmes em sala de aula, em meio a leituras de algumas das referências bibliográficas que foram fundamentais para a pesquisa. Ao mesmo tempo, introduzi filmes e referências que não puderam fazer parte do doutorado, por motivos objetivos e subjetivos diversos.

O que me interessa aqui é destacar a concepção que orienta o cronograma, sem pretender explicá-lo ou detalhar as motivações efetivas de cada uma de suas partes. Também me interessa aprimorar um hábito que venho tentando manter: a divulgação pública, em regime de acesso livre e aberto, do meu trabalho como professor e pesquisador. Se você tiver alguma crítica ou sugestão, entre em contato, deixe seu comentário.

Os filmes relativos à pesquisa de doutorado que foram exibidos em 2018.2 e serão novamente em 2019.1 são:

  • Nazi concentration camps (1945)

  • The Stranger (Orson Welles, 1946)

  • Verboten! (Samuel Fuller, 1959)

  • Nuit et brouillard (Alain Resnais, 1955)

  • Shoah (Claude Lanzmann, 1985)

  • História(s) do cinema (Jean-Luc Godard, 1988-1998) [trechos]

Um filme relacionado à temática dos campos que foi incluído na disciplina não chegou a ser estudado no doutorado, constituindo uma das lacunas da pesquisa: O filho de Saul (László Nemes, 2015).

Os filmes relativos ao projeto de pesquisa Imagem e direitos humanos que serão assistidos em 2019.1 são:

  • A imagem que falta (Rithy Panh, 2013), que influenciou a abordagem do doutorado, embora não tenha sido parte do corpus da pesquisa

  • Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006)

  • Corumbiara (Vincent Carelli, 2009)

  • Taego Ãwa (Henrique Borela e Marcela Borela, 2015)

  • Martírio (Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, 2016)

Outros filmes do projeto de pesquisa poderiam ter sido incluídos, se houvesse tempo. Em todo caso, sei que esse planejamento já é bastante carregado, mas me interessa tentar indicar em que sentidos ele pode ser instigante para mim e, espero, também para estudantes que se dediquem às aulas. Como serão assistidos muitos filmes, a assiduidade e a pontualidade serão fundamentais para um bom aproveitamento da experiência proposta. Enfim, como estava dizendo, essa experiência tem algumas linhas de fuga que podem ser instigantes:

  1. Partilhar a espectatorialidade. Compartilhar a experiência espectatorial durante as aulas e debater sobre os filmes exibidos em seguida é uma ideia que me parece cada vez mais interessante, pois confronta uma tendência de fragmentação e de isolamento. É difícil ter tempo para fazer isso mais frequentemente, mas ainda assim pode ser sempre interessante tentar prolongar a partilha da experiência do cinema, cada vez mais fragmentada hoje. O ponto máximo dessa proposta de partilha da espectatorialidade está, sem dúvida, nas duas aulas em que assistiremos às duas eras em que se divide o monumental Shoah.

  2. Confrontar o esquecimento. Parece cada vez mais atual e necessário revisitar e repensar as imagens dos campos, quando são expostas nos filmes, e os testemunhos que, particularmente no caso de Shoah, que se nega a recorrer ao arquivo, referem-se de modo tão contundente à experiência concentracionária e ao processo de extermínio perpetrado pelos nazistas contra judeus (os objetos do genocídio perpetrado em nome da “Solução Final para o problema judeu”, a qual corresponde à adoção de métodos de assassinato em massa, acrescentando a diversas formas de execução o uso de câmaras de gás e fornos crematórios) e contra outras coletividades (que foram também vítimas da imensa indústria nazista da morte). Fazer isso em uma disciplina de graduação é uma maneira pequena de contribuir para a formação de consciência histórica e a construção da memória, confrontando o esquecimento que, conforme o projeto nazista e sua herança ainda tragicamente atual, dá continuidade ao extermínio.

  3. Pensar as relações entre contextos. Embora tenha se convertido numa espécie de paradigma do “terror moderno”, para usar um termo de Achille Mbembe, em seu ensaio Necropolítica, além de frequentemente ser objeto de discursos que enfatizam sua singularidade (e eventualmente negam qualquer possibilidade de comparação ou de aproximação com outros contextos), a experiência histórica dos campos nazistas e o projeto de genocídio dos judeus constituem casos exemplares, e como todo exemplo definem-se por serem singulares e comparáveis ao mesmo tempo. Sem pretender transformar a comparação com os campos em um método rígido, fixando coordenadas históricas que são muito mais complexas do que se costuma supor, a articulação do itinerário fílmico do doutorado com os filmes da minha pesquisa atual sugere diversas possibilidades de comparação, de aproximação e de extrapolação, assim como importantes diferenças que precisam ser pensadas. Discutir essas possibilidades é um dos desafios que me parece mais instigantes no estudo das relações entre imagem e direitos humanos, na medida em que tanto imagem quanto discursos e práticas de direitos humanos existem, necessariamente, em constante movimento entre contextos.

Entre outras, essas são as linhas de fuga que constituem o cronograma a seguir:

Cronograma de Cinema e História (divulgado em 18/02/2019)

Aula 1. 13/03/2018 – Apresentação

Apresentação da proposta de curso, do programa e do cronograma.

Exibição em sala, seguida de debate: Na missão, com Kadu (2016), de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito (disponível em: https://vimeo.com/232282418; acesso em 18/02/2019)

Leitura em sala: trechos de “Sobre o conceito da história”, de Walter Benjamin (1983) e dos comentários hermenêuticos de Michael Löwy em Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005)


Aula 2. 20/03/2019 – Genealogia e história dos direitos humanos

Leitura prévia:

“Introdução – ‘Consideramos estas verdades autoevidentes’”, de Lynn Hunt (2009)

“1. ‘Torrentes de emoções’ – Lendo romances e imaginando a igualdade”, de Lynn Hunt (2009)

Exibição em sala, seguida de debate: Nazi concentration camps (1945)

Leitura complementar:

“Na caverna de Platão”, de Susan Sontag (2004, p. 11-35)

Para que servem os direitos humanos?, de Pádua Fernandes (2009)


Aula 3. 27/03/2019 – Direitos humanos, políticas da memória, cinema e imagem

Leitura prévia:

“Os direitos humanos internacionais e a política da memória: limites e desafios”, de Andreas Huyssen (2014, p. 195-213)

Exibição em sala, seguida de debate: A imagem que falta (Rithy Panh, 2013)

Leitura complementar:

“O filme: uma contra-análise da sociedade?”, de Marc Ferro (2009, p. 79-115)

“Memória, esquecimento, silêncio”, de Michael Pollak (1989)


Aula 4. 03/04/2019 – Paisagens e imagens dos campos na perspectiva de uma arqueologia do sensível

Leitura prévia:

Cascas, de Georges Didi-Huberman (2017)

Leitura complementar:

Diante da dor dos outros [trechos], de Susan Sontag (2003)

A partilha do sensível [trechos], de Jacques Rancière (2005)

Projetos temáticos – Etapa 1: definição e discussão inicial sobre temas e propostas


Aula 5. 10/04/2019 – Abrir, ver, rever e ler os campos

Leitura prévia:

“Imagem e legibilidade da história”, de Georges Didi-Huberman (2018, p. 17-22)

“A prova: abrir os olhos sobre o estado dos lugares”, de Georges Didi-Huberman (2018, p. 29-38)

Exibição em sala, seguida de debate: The Stranger (Orson Welles, 1946)

Leitura complementar:

“Quatro pedaços de película arrancados ao inferno”, de Georges Didi-Huberman (2012, p. 15-31)


Aula 6. 17/04/2019 – Julgar e pensar os campos, sustentar o olhar diante da catástrofe

Leitura prévia:

“A indignação: abrir os olhos dos assassinos”, de Georges Didi-Huberman (2018, p. 38-52)

“A dignidade: fechar os olhos dos mortos”, de Georges Didi-Huberman (2018, p. 53-60)

“História e legibilidade da imagem”, de Georges Didi-Huberman (2018, p. 60-72)

Exibição em sala, seguida de debate: Verboten! (Samuel Fuller, 1959)

Leitura complementar:

“Contra todo e qualquer inimaginável”, de Georges Didi-Huberman (2012, p. 33-47)


Aula 7. 24/04/2019 – História e imagem: arquivo, poder e abertura anarquívica

Leitura prévia:

“O caminho das imagens: três histórias de filmagens na primavera-verão de 1944”, de Sylvie Lindeperg (2013)

Exibição em sala, seguida de debate: Nuit et brouillard (Alain Resnais, 1955)

Leitura complementar:

“No próprio olho da história”, de Georges Didi-Huberman (2012, p. 49-60)

“Semelhante, dissemelhante, sobrevivente”, de Georges Didi-Huberman (2012, p. 61-69)

Projetos temáticos – Etapa 2: debate sobre desenvolvimento, com base em levantamento inicial de referências


Feriado: 01/05/2019 – Dia do Trabalho


Aula 8 e 9. 08/05/2019 – Saturação da memória, denegação do arquivo e imaginação anti-arquivo em Shoah

Exibição em sala, seguida de debate: Shoah (Claude Lanzmann, 1985) – Parte 1


Aula 9 e 10. 15/05/2019 – Saturação da memória, denegação do arquivo e imaginação anti-arquivo em Shoah

Exibição em sala, seguida de debate: Shoah (Claude Lanzmann, 1985) – Parte 2


Observação: a carga horária correspondente a uma aula (4 horas-aula) foi distribuída, de modo aproximado, entre 08 e 15/05/2019, em função da duração ampliada dessas aulas, cujo objetivo é permitir a experiência completa do filme de Claude Lanzmann.


Aula 11. 22/05/2018 – Reconstituição e alegoria históricas

Leitura prévia:

“A alegoria histórica”, de Ismail Xavier (2005)

Exibição em sala, seguida de debate: O filho de Saul (László Nemes, 2015)

Leitura complementar:

“A testemunha”, de Giorgio Agamben (2008)

“Imagens apesar de tudo: problemas e polêmicas em torno da representação, de ‘Shoah’ a ‘O filho de Saul’”, de Ilana Feldman (2017)


Aulas 12. 29/05/2019 – Biopolítica, necropolítica e a história do terror moderno

Leitura prévia:

Necropolítica, de Achille Mbembe (2018)

Exibição em sala, seguida de debate: trechos de História(s) do cinema (1988-1998), de Jean-Luc Godard

Leitura complementar:

“O ‘muçulmano’”, de Giorgio Agamben (2008)

“Antropologia e direitos humanos: alteridade e ética no movimento de expansão dos direitos universais”, de Rita L. Segato (2006)

Projetos temáticos – Etapa 3: debate sobre desenvolvimento, com base em apresentação de estrutura e resumo expandido


Aula 13. 05/06/2019 – Imagens de atrocidade entre a falta e a saturação

Leitura prévia:

“Imagens de atrocidade e modalidades do olhar: questões de método”, de Vicente Sánchez-Biosca, em Morettin et al. (2017, p. 396-438)

Exibição em sala, seguida de debate: Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006)

Leitura complementar:

Pode o subalterno falar?, de Gayatri C. Spivak (2010)

Projetos temáticos – Etapa 4: debate sobre desenvolvimento, com base em apresentação de versões em elaboração


Aula 14. 12/06/2019 – Ética da imagem: existe um direito à invisibilidade?

Leitura prévia:

“Tortura e a ética da fotografia: pensando com Sontag”, de Judith Butler (2015, p. 99-149)

Exibição em sala, seguida de debate: Corumbiara (Vincent Carelli, 2009)

Leitura complementar:

Pode o subalterno falar?, de Gayatri C. Spivak (2010)

Projetos temáticos – Etapa 5: debate sobre desenvolvimento, com base em apresentação de versões em elaboração


Aula 15. 19/06/2019 – Sobrevivências, resistências, levantes

Leitura prévia:

“Introdução”, de Georges Didi-Huberman, e “Levante”, de Judith Butler, em Didi-Huberman (2017, p. 13-21 e p. 23-36)

Exibição em sala, seguida de debate: Taego Ãwa (Henrique Borela e Marcela Borela, 2015)

Leitura complementar:

“A imagem intolerável”, de Jacques Rancière (2012)

Projetos temáticos – Etapa 6: debate sobre desenvolvimento, com base em apresentação de versões em elaboração


Aula 16. 26/06/2019 – Embates no presente, memória das lutas, contra-informação e engajamento

Leitura prévia:

“Contra-ataques: sobressaltos de imagens na história da luta de classes”, de Nicole Brenez, em Didi-Huberman (2017, p. 71-89)

Exibição em sala, seguida de debate: Martírio (Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, 2016)

Leitura complementar:

“Informação, contra-informação, ur-informação fílmicas”, de Nicole Brenez (2017)

Projetos temáticos – Etapa 7: debate sobre desenvolvimento, com base em apresentação de versões em elaboração


Aula 17. 03/07/2019 – Modalidades de relação entre imagem e direitos humanos: estudos de caso

Projetos temáticos – Etapa 8: apresentação das versões finais, desdobramentos e perspectivas


Encerramento do curso

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.