As sombras são

as sombras são assombração

A fotografia - que se diz "escrita da luz" num conhecido jogo etimológico - aparece sempre como uma das formas da sombra. Toda etimologia não passa de um jogo em que a aposta da origem se encontra lançada com mais ou menos ímpeto, em meio à perda ou à ausência de sentido que constituem o destino originário de toda linguagem. 

No livro O ato fotográfico e outros ensaios, Philippe Dubois aponta a relação histórica e estética da fotografia com o desenho da sombra e com a técnica da silhueta, entre outras. Em todo caso, tudo se passa como se a fotografia se inserisse numa linhagem de tentativas de fixar não tanto o mundo e sua imagem especular, mas a sombra e seu mundo em reverso.

Às vezes, como na imagem fantasmagórica que se vê acima, é uma beleza evanescente que se deixa entrever na malha fotográfica, feita de fios de luz e sombra que se permitem sonhar. Todo rastro de real que se inscreve na fotografia se deixa atravessar por um resíduo - se não por torrentes retumbantes e por vezes redundantes - de matéria onírica, como poeira nos olhos. É talvez dessa poeira que pode surgir, inaudita e impensável, a emoção que, perturbando a transparência do olhar, cava em quem olha a morada da imagem, de suas memórias, de suas histórias. Nessa morada, o que se re-vela, fugaz, é a anarquívica arte de viver.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.