Aningaaq, de Jonás Cuarón: a multiplicação dos sentidos

Aningaaq, de Jonás Cuarón: a multiplicação dos sentidos

Desde que assisti Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, suas imagens permaneceram na minha memória. Há alguns dias, descobri que Jonás Cuarón, filho de Alfonso e co-autor do roteiro do filme, dirigiu um curta-metragem, intitulado Aningaaq, que mostra outra perspectiva sobre o diálogo da Dra. Ryan Stone com uma pessoa na Terra, num momento da narrativa em que ela parece desistir de qualquer sonho de sobrevivência.

São 7 minutos de encenação consistente, que revela gradualmente a paisagem ártica da Groenlândia. No fiorde fictício de Sikvivitsoq, o pescador Aningaaq responde a uma transmissão captada por seu rádio, e o filme de Jonás Cuarón consiste na encenação do diálogo entre ele e a especialista de missão interpretada por Sandra Bullock, que está numa nave Soyuz, de origem russa, depois de todos os astronautas de sua equipe terem morrido.

Se, em Gravidade, as falas de Aningaaq não são legendadas, com o intuito de aproximar o espectador do filme da experiência de Stone, em Aningaaq, além de ver o homem com quem ela conversa, o espaço em que ele se encontra, os animais que o acompanham, a família a que pertence, podemos entender, efetivamente, o que ele diz, por meio das legendas, enquanto, para Stone, a voz dele permanece sem significado (embora os sons que ela ouve estejam repletos de sentidos: os latidos dos cachorros, o choro da criança, a canção de ninar são aspectos da vida na Terra a que ela procura se apegar, ao entregar-se à possibilidade da morte).

O espectador experimenta o diálogo como informação, por meio da tradução, enquanto os interlocutores em cena o experimentam como uma experiência disforme de comunicação parcial. As palavras que enunciam perdem seus significados, as onomatopeias tornam-se cruciais para algum entendimento, e o que resta de comunicação está fora da linguagem articulada: é a multiplicação dos sentidos, em meio à perda dos significados.

Assista Aningaaq (2013), de Jonás Cuarón, com legendas em português

Depois de rodar o vídeo, verifique se as legendas em português estão ativadas. É o segundo ícone à direita, na barra inferior.

Sou professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador, desde maio de 2017. Criei o incinerrante em setembro de 2009, e desde então o site abriga alguns traços das minhas atividades como professor, pesquisador, crítico, curador e programador. Também criei, junto com a minha companheira, a Juliana (<3), um projeto chamado a quem interessar possa, que a gente começou em abril de 2016. Se quiser saber mais sobre mim, pode começar com a breve apresentação e os links que coloquei aqui.