Animáquina: fotografia e discursos da brasilidade
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Fotografia e texto

O desafio da interpretação e análise de qualquer imagem começa por um problema crucial e interminável: sua contextualização. Como resultado daquilo que, no livro O ato fotográfico e outros ensaios, Philippe Dubois chama de "golpe do corte", a fotografia aparece como uma fatia de espaço e de tempo, que remete ao contexto original de captura da imagem na mesma medida que nos afasta dele. Devemos nos contentar com indícios - contundentes, mas provavelmente insuficientes - e dar uma atenção especial à relação entre aquilo que uma imagem mostra e aquilo que ela não mostra, mas podemos adivinhar ou imaginar quando a observamos - isto é, a relação entre campo e fora-de-campo.

Além dos indícios visuais de caráter propriamente fotográfico, é comum que as fotografias sejam acompanhadas de informações textuais. A começar pelo título que, eventualmente, o fotógrafo dá à imagem que capturou, passando pela legenda que, talvez, ele ou um editor atribuam à imagem, chegando a comentários mais longos, como depoimentos, reconstituições e rememorações sobre a cena fotografada, o texto constitui um suplemento crucial para a fotografia. Até mesmo quando está ausente da superfície da imagem, a informação textual se faz presente na mente do espectador, que procura palavras para descrever o que vê. Apesar de a interpretação mais comum da ideia de que uma imagem vale por mil palavras estar relacionada a um suposto caráter inefável, inexprimível ou indizível da imagem, talvez seja possível propor uma interpretação alternativa, baseada na ideia de valor: se uma imagem vale por mil palavras, é porque nosso olhar paga por tudo o que vê com o preço da linguagem, de alguma linguagem que, consciente ou inconscientemente, vem nos habitar.

Ao enviar sua imagem para o projeto Outros olhos (atualmente desativado), Dago escolheu um título - "Brasilidade - Fauna" - e escreveu um comentário que poderia funcionar como legenda - "Como nossa fauna é rica em cores e detalhes!". Porém, nenhum desses elementos textuais aparece de fato na imagem, como a assinatura que vemos no canto inferior direito. Entre todas as instâncias do texto na fotografia, a assinatura desempenha uma função que tem efeitos sociais e políticos fundamentais: a função de marca de autoria, que pode ser tanto individual quanto institucional. Marcar a autoria é uma forma de reivindicar os direitos de uso da imagem, assim como de indicar sua procedência, num contexto tecnológico que potencializa igualmente as formas de apropriação, manipulação e disseminação de imagens. Em outro sentido, marcar a autoria é também inscrever a imagem num contexto suplementar ao contexto de captura (cujos indícios são visíveis no campo e permanecem imagináveis no fora-de-campo): o contexto de manipulação da imagem, que supõe a intervenção sobre suas características depois do clique, podendo até mesmo modificar substancialmente o que o aparelho fotográfico registrara num primeiro momento. Em todo caso, mesmo no momento da captura não existe nenhuma pureza da realidade sendo capturada pela câmera. Ao contrário, a captura fotográfica consiste justamente numa forma de fabricação da realidade, com base nos programas embutidos no aparelho fotográfico, nas variáveis de foco, luz, entre tantas outras, calculadas pelo fotógrafo, e estabelecidos pelas circunstâncias. É um tema fundamental para Vilém Flusser no livro Filosofia da caixa preta, cuja leitura recomendo muito a qualquer pessoa que queira compreender a fotografia em relação à época em que vivemos, com base no pensamento rico desse filósofo checo naturalizado brasileiro.

Fauna e brasilidade

A arara se destaca sobre o fundo desfocado em que, contudo, podemos identificar plantas e uma grade quadriculada. A grade é um dos indícios mais importantes para imaginarmos o contexto de captura da imagem: um zoológico ou um espaço que se destina igualmente à exibição de animais. A fotografia da arara prolonga o dispositivo de exibição dos animais que está em jogo no zoológico e que, contudo, a imagem não permite ver por completo. Ao prolongar o dispositivo do zoológico, por outro lado, é como se a fotografia constituísse uma prótese: ela permite ver detalhes que permanecem invisíveis a olho nu, como se diz. Vestindo nossos olhos, o aparelho fotográfico suplementa suas possibilidades. Aqui, como o comentário/legenda sugere, vemos uma enorme riqueza de cores e detalhes, que se evidenciam sob a luminosidade difusa do registro - uma luz que revela também a pulseira de controle na pata da arara, sob a forma de uma superfície pontiaguda, de um brilho um pouco mais intenso que irradia sentidos no cerne da imagem (estou pensando no punctum de que fala Roland Barthes em A câmara clara: “O punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere).”).

O ato de olhar o animal movimenta uma série de questões, tanto no contexto do zoológico quanto no marco da fotografia. Entretanto, gostaria de comentar especificamente o feixe temático que está em jogo no título e no comentário/legenda: a ideia de brasilidade e a sua associação com o motivo da fauna rica. As formas de imaginação da nação desempenham um papel central na sua construção, na delimitação dos contornos sensíveis que dão a ela a concretude de uma comunidade política de pertencimento. Desse ponto de vista, quando fotografamos elementos típicos do imaginário nacional, participamos do processo de construção da nação: nossa fotografia se deixa capturar, num movimento ambivalente, pela máquina do discurso nacional.

A arara da fotografia de Dago não é, portanto, apenas um animal que foi registrado na superfície ricamente colorida da fotografia. Mais importante: em seu devir-imagem - o devir-imagem de alguma coisa é aquilo que, nela mesma, a abre para fora de si, fazendo-a puro sensível, expropriável e interminavelmente re-apropriável por outros, em outros lugares; o devir-imagem projeta para fora de todo contexto - a arara é animáquina, inscrevendo-se num dispositivo de produção de sentidos que tem como fim a fabricação da ideia de brasilidade.

Outra-mente

Uma das tarefas fundamentais que devemos assumir - diante das imagens com as quais entramos em contato cotidianamente e, de forma ainda mais importante, em relação àquelas que produzimos - consiste em propor um exercício imaginativo a partir da seguinte pergunta: é possível imaginar essa imagem de outra forma? Seus temas, suas características estéticas, as escolhas formais - se tudo isso fosse trabalhado de maneira diferente, seriam obtidas outras imagens e outros efeitos de sentido. Diante do império da redundância em que nos encontramos, imaginar outra-mente não é apenas um exercício interessante e cheio de surpresas, a que muitos de nós sem dúvida nos dedicamos quando pensamos em como uma determinada foto ficaria melhor de outro jeito, se pudéssemos fazê-la de novo. Imaginar outra-mente é também uma obrigação criativa, repleta de potência inventiva (com efeitos estéticos, éticos e políticos) e de intensidade sensorial e intelectual. Como é possível imaginar outra-mente o que vemos na fotografia, a arara como animáquina inscrita no dispositivo da brasilidade? Outros títulos, outros comentários/legendas, outras interpretações poderiam lançar a mesma imagem em outros sentidos? Você tem alguma sugestão de títulos e/ou comentários/legendas que resultem em interpretações alternativas? Por outro lado, você imagina outras imagens que abordem de forma diferente as mesmas temáticas da brasilidade e da fauna? E afinal, antes de tudo, o que você achou da fotografia de Dago? E dos meus comentários? Deixe sua opinião na caixa de comentários e vamos conversar!

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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