A programação do XXI Encontro Socine, que acontece entre 17 e 20 de outubro na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, inclui uma comunicação minha. No dia 19/10, quinta-feira, às 11:30, participo da sessão 4 do simpósio temático "O comum e o cinema", que tem dois trabalhos interessantíssimos junto com o meu.

Parte da pesquisa em andamento que desenvolvo na Faculdade de Comunicação da UFBA, minha comunicação tem como título "Arquivo e montagem anarquívica em A Imagem que Falta". O resumo curto é:

Analiso o filme A Imagem que Falta (2013), de Rithy Panh, com base nos conceitos de arquivo – um dos recursos mais explorados pelo cineasta neste e em outros documentários, em busca das imagens que restam do genocídio cambojano – e de anarquivo – que corresponde ao modo como o arquivo é deslocado por meio de uma série de gestos de montagem que visam a fabricar as imagens que faltam do genocídio perpetrado pelo regime dos Khmers Vermelhos, liderado por Pol Pot, de 1975 a 1979.

O projeto de pesquisa, Imagem e direitos humanos, já gerou também algumas reflexões sobre as imagens que faltam do genocídio indígena em andamento no Brasil, entre as quais também incluí proposições em torno do conceito de montagem anarquívica, em meio a uma tentativa de interrogar as relações entre ver junto e imaginar o comum.

Assim, minha participação no Colóquio de Fotografia da Bahia explora algumas das questões que serão também abordadas na comunicação que apresentarei em João Pessoa. Eis o resumo expandido (e as referências) dessa comunicação:

Um dos motivos recorrentes que atravessam as diversas formas de relação entre cinema e direitos humanos é o tema das imagens que faltam das violações à dignidade humana, de modo geral, e do genocídio como crime contra a humanidade (RIBEIRO, 2016) e como experiência-limite do mal (BADIOU, 2003), em particular. De modo recorrente – e, a cada vez, singular –, no registro dos genocídios que atravessam a história do século XX, o inimaginável demarca suas irredutíveis lacunas em meio à busca de disseminação de imagens como denúncias de violações, no cerne do trabalho de memória que fundamenta a reivindicação de direitos universais (HUYSSEN, 2014).
De fato, a Declaração Universal de 1948 reivindica a “consciência da humanidade”, como se escreve no preâmbulo do documento, para afirmar os direitos humanos como “a mais alta aspiração do homem comum”, contra os “atos bárbaros”. No contexto histórico de elaboração da Declaração, os “atos bárbaros” correspondem à experiência histórica dos campos de concentração e de extermínio da Alemanha nazista – mas permanece aberto o sentido da expressão, que assume a condição de significante flutuante. Se os “atos bárbaros” perpetrados pelos nazistas nos campos do Terceiro Reich assombram a história do cinema e a história de seu século (RANCIÈRE, 2013), como evidencia(m) a(s) História(s) do cinema (1988-1998), de Jean-Luc Godard, a barbárie do inimaginável se projeta sobre outros eventos, como o genocídio perpetrado pelo regime de Pol Pot e dos Khmers Vermelhos no Camboja, de 1975 a 1979.
É ao desafio de imaginar o inimaginável da experiência cambojana que se dedica Rithy Panh em diversos filmes, entre os quais A Imagem que Falta (2013) representa um momento de densa contundência. Este artigo propõe uma análise estético-política desse filme, com base numa redefinição exploratória dos conceitos de arquivo (LEANDRO, 2013) – que designa um dos recursos mais explorados pelo cineasta neste e em outros documentários, em busca das imagens que restam do genocídio cambojano – e de anarquivo – que corresponde ao modo como o arquivo é deslocado por meio de uma série de gestos de montagem que visam a fabricar as imagens que faltam da experiência do genocídio.
A análise estética, baseada na atenção aos recursos de linguagem audiovisual movimentados pelo cineasta, torna possível pensar a dimensão política do filme de Panh. Nesse sentido, é preciso identificar as modalidades e interrogar os sentidos simbólicos do gesto de criação de estátuas de barro e de maquetes, da recusa da animação e da busca de composição de tableaux sintéticos que se encadeiam numa narrativa memorial, bem como dos diferentes procedimentos que tornam possível a apropriação de imagens de arquivo (recorte, sobreimpressão etc.). Nesse contexto, o conceito de montagem anarquívica permite designar, a um tempo, uma forma de relação com o arquivo que decorre de um trabalho de deslocamento, de descontextualização, de desterritorialização de suas imagens, e uma forma de relação com o porvir, com o que vem, com o comum que resta a inventar.
Nesse sentido, a interrogação política de A Imagem que Falta depende do reconhecimento de sua relação com o horizonte coletivo de interrogação da história do Camboja, a partir do exílio, articulando um enquadramento nacional e um enquadramento transnacional de imaginação do comum. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer, igualmente, na montagem anarquívica que permite a Panh deslocar as imagens de arquivo associadas à história nacional e ao exílio, uma abertura para um horizonte mundial de invenção do comum, que está associado ao projeto cosmopolítico dos direitos humanos. Rithy Panh emerge como um inventor de imagens que suplementam as imagens que faltam do genocídio e, ao mesmo tempo, as imagens que faltam da dignidade: assim como o mal, o comum participa do inimaginável, que não corresponde a uma ausência absoluta de imagens, mas a uma paradoxal produtividade imagética (DIDI-HUBERMAN, 2003; RIBEIRO, 2016).
Bibliografia:
BADIOU, Alain. L’éthique : essai sur la conscience du mal. Caen: Nous, 2003.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Images malgré tout. Paris: Les Éditions de Minuit, 2003.
HUYSSEN, Andreas. Os direitos humanos internacionais e a política da memória: limites e desafios. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Trad. Vera Ribeiro. 1a edição. Rio de Janeiro: Contraponto / Museu de Arte do Rio, 2014, p. 195-213.
LEANDRO, Anita. Um arquivista no Camboja. In: MAIA, Carla; FLOREs, Luís Felipe (orgs.). O cinema de Rithy Panh. São Paulo; Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil; Ministério da Cultura, 2013, p. 185-198.
RANCIÈRE, Jacques. Uma fábula sem moral: Godard, o cinema, as histórias. In: ______. A fábula cinematográfica. Trad. Christian Pierre Kasper. Campinas, SP: Papirus, 2013, p. 171-186.
RIBEIRO, Marcelo R. S. Do inimaginável: cinema, direitos humanos, cosmopoéticas. Tese de doutorado. Goiânia: PPG em Arte e Cultura Visual, UFG, 2016.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Goiânia, Brasília, Florianópolis e Montréal. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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