A célula melodramática em Captain Phillips (2013)

A vida familiar como moldura

Um dos elementos que atravessa a narrativa de Captain Phillips (2013) é o que se poderia chamar de célula melodramática. Embora o filme de Paul Greengrass não constitua um melodrama, a energia de sua narrativa decorre, em parte, da imaginação melodramática que se introduz entre seus planos trêmulos e tensos, em meio à ação que requer a atenção do espectador.

A sequência inicial, em que Phillips se prepara para partir para o Maersk Alabama, que deve conduzir de Omã ao Quênia, passando pelo chifre da África, enfatiza sua relação com a esposa. A introdução de elementos da vida familiar é uma das formas de operação da imaginação melodramática e, em Captain Phillips, é por meio dessa moldura que os acontecimentos que recairão sobre Phillips devem ser interpretados pelo espectador.

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A célula melodramática e a globalização

A conversa inicial entre Phillips e Andrea, sua esposa, liga as temáticas da célula melodramática - a vida familiar, o amor, os filhos - à temática central da globalização. Depois de saber da viagem que irá empreender, Phillips e Andrea conversam sobre como o mundo em que vivem não é mais o mesmo de quando nasceram e de quando eram jovens. Falam sobre a necessidade de reconhecer que o mundo assumiu dimensões mais amplas do que antes, sobre os desafios que seus filhos devem saber enfrentar, sobre a incapacidade de intervir e de modificar o ritmo das transformações, sobre a necessidade de paciência para lidar com os problemas e para encontrar um caminho a seguir na vida. Phillips expressa suas preocupações em relação a seu casal de filhos, enquanto Andrea acompanha seus raciocínios e procura demonstrar seu apoio à iminente viagem.

Na sequência seguinte, em que acompanhamos os preparativos dos piratas somalianos para novos ataques a cargueiros na costa do país, o filme representa a vida do antagonista de Phillips, Abduwali Muse, sem introduzir quaisquer elementos da célula melodramática: Muse está em sua casa, mas não vemos sua família, a não ser talvez de relance; suas relações pessoais são uma função da pirataria. Vemos os indícios de violência que marcam seu cotidiano, evidenciados pela chegada de homens armados em caminhonetes, para pressionar por novas tentativas de ataques aos navios. A escolha dos homens que liderará encerra a apresentação da personagem de Muse.

Identificação e distanciamento

A representação de Phillips, baseada na constituição da célula melodramática como cerne emocional da narrativa, contrapõe-se à representação de Muse, desprovida de qualquer menção aos elementos da célula melodramática e baseada na construção visual da ideia de pobreza como justificativa da violência (conforme o discurso supostamente crítico a que o filme parece fazer eco mais de uma vez). Dessa forma, a célula melodramática garante a identificação espectatorial em relação a Phillips e o distanciamento em relação a Muse, que aparece como uma figura desencantada do exótico: seu aspecto primitivo é reduzido a mero atraso tecnológico, a fascinação da diferença cultural é convertida em mera curiosidade, a alteridade torna-se apenas uma função da cor da pele.

Quando, no final do filme, Phillips se arrisca para escrever um bilhete para sua família e grita que ama sua mulher e seus filhos para as câmeras dos SEALs que abordaram o barco salva-vidas em que foi sequestrado, a célula melodramática opera para ressaltar o sofrimento do protagonista e para reiterar a identificação espectatorial com a posição de sujeito que ele representa. Esse é, afinal, o papel central da imaginação melodramática em Captain Phillips. A reiteração dos elementos que remontam à vida familiar de Phillips antecede o desfecho do sequestro, que culmina na execução de três piratas e na prisão de Muse, realizada pelos militares estadunidenses. O distanciamento em relação a Muse e aos demais piratas a que a célula melodramática conduzia o espectador realiza-se, finalmente, como morte e como prisão, por meio da tecnologia de guerra que os SEALs colocam em movimento, que define uma forma espetacular de mediação da experiência espectatorial da desaparição do outro.

Professor de história e teoria do cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA, em Salvador. Nascido em São Paulo, de onde saiu aos 9 anos de idade, já morou em Brasília, em Florianópolis e em Montréal, além de Goiânia, onde vive atualmente. É pesquisador e crítico de cinema e cultura visual, programador e curador de mostras e festivais de cinema, doutor em Arte e Cultura Visual, com pesquisa sobre cinema e direitos humanos. É indeciso e nervoso, tenta ser leve e cuidadoso, consegue ser magro e comer muito.

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