Cindy Sherman no MoMA

A exposição Cindy Sherman, do Museu de Arte Moderna de Nova York, conta com um site que, sem dúvida, é impossível simplesmente visitar de forma mais sumária: é preciso passear em suas múltiplas veredas, sem qualquer receio de se perder, ou de perder tempo. Entre as imagens, dispostas em 11 galerias digitais, é possível encontrar alguns rastros de palavras que pretendem dar conta dos diversos aspectos de uma obra que se estende de meados da década de 1970 até os dias de hoje, como um desfile de máscaras em que o rosto de Sherman encontra obsessivamente os espelhos em que sua imagem pode se perder. A curadoria de Eva Respini e de Lucy Gallun entrelaça pequenos textos de apresentação das séries que compõem a obra de Sherman com depoimentos de artistas, críticos, historiadores da arte e outros que comentam aquelas que consideram suas obras favoritas.A importância da obra de Sherman está relacionada ao decisivo afastamento que opera em relação à estética - e à ética - do "momento decisivo", que atribui à fotografia um caráter fundamentalmente documental, a partir de uma leitura redutora da herança de Henri Cartier-Bresson e de discursos teóricos ligados à ideia de que a fotografia é eminentemente uma forma indiciária ou indéxica de significação. Ao propor um trabalho de encenação, cuja relação com a mise-en-scène cinematográfica é interrogada na conhecida série de Untitled Film Stills (1977-1980), por exemplo, Sherman desloca a prática fotográfica em direção a uma poética do rosto como máscara, que transforma o procedimento do autorretrato em uma espécie de heterorretrato, através da ficcionalização do eu.

Cindy Sherman -Untitled Film Still #62 (1977).jpeg

Nas obras de Sherman, a fotografia se torna um espaço de invenção e seu valor de documento se rarefaz diante de uma multiplicação temporal: na sua instantaneidade, escondem-se sempre figuras de mais de um tempo. São os tempos da escrita fotográfica que se entrelaçam em sua multiplicidade: ao tempo da captura, que a tradição do "momento decisivo" parece transformar em fetiche do ato fotográfico, acrescenta-se a diversidade de tempos da encenação (preparação de figurino e de maquiagem, concepção de cenário e de enquadramento etc.). São também os tempos da leitura que precisam se multiplicar: à potência imaginativa que suplementa qualquer fotografia com a narrativa dos movimentos que a imagem inscreve e excreve - isto é, a narrativa dos movimentos enxertados na imagem e das durações que escapam da sua superfície, transbordando sua moldura - é preciso acrescentar um jogo intertextual cuja necessidade é irredutível, evocando as memórias do cinema que habitam nossos olhos.

Cadastre-se para receber novidades

* preenchimento necessário