A iconografia da nação: o Brasil sob o signo da antropofagia

I

A construção de uma nação passa pela articulação de formas de imaginar suas paisagens. Em jogo, está o campo de possibilidades da consciência coletiva que constitui a caução da identidade nacional. É, entre outras coisas, a partir das narrativas contidas nas imagens – as histórias movimentadas e entrelaçadas, delimitadas e potencializadas, assim como aquelas fixadas e contidas, negadas e encerradas pelo processo de imaginação – que opera o dispositivo da nação, como uma máquina cujo objetivo é produzir o povo como sujeito da identidade nacional. Pode-se rastrear, na iconografia da nação, os elementos que se articulam para conformar seu dispositivo: as figuras privilegiadas, as fábulas recorrentes, as paisagens domesticadas ou ainda por domesticar. Nesse rastro, é o que escapa ao enquadramento da nação - permanecendo aquém de sua rede ou projetando-se além de sua moldura - que constitui o combustível que alimenta o motor do dispositivo nacional.

II

É sob o signo do monstruoso que se inscrevem os primeiros encontros da imaginação européia com o que a Europa chama de Novo Mundo. Informadas por um imaginário cuja genealogia remete à Idade Média e aos inúmeros seres sobrenaturais que a povoam, as imagens são comparáveis aos relatos de viagem e ao estranhamento que orbita sua fascinação, que está baseada no recurso aos tropos recorrentes por meio dos quais a Europa imagina seus outros, do mais evidentemente distante ao mais estranhamente familiar. Entre tais tropos, encontra-se, por exemplo, a antropofagia, cuja importância para as imaginações do Brasil é crucial. Os monstros e seus corpos abjetos demarcam as fronteiras da humanidade, de forma insistente, embora insegura. O humano nunca se confirma, nunca se limita, nunca se apresenta, restando sempre por fazer, por inventar. O humano se dá como potência, e não como qualidade fixa, acabada, mas apenas se pode constituir ao se deixar apreender dentro das fronteiras demarcadas pelo monstruoso, dentro dos dispositivos que povoam o espaço assim territorializado. É por isso que a pergunta primordial que a imaginação européia coloca para si mesma diante da alteridade que habita o Novo Mundo é uma pergunta sobre o que define a própria comunidade da humanidade. São bestas ou humanos os habitantes do Novo Mundo? Seus corpos têm ou não têm alma? A resposta para essa pergunta, entre ansiosa e ambivalente, estabelece um duplo vínculo de identificação e diferenciação. Os habitantes do Novo Mundo são humanos, e não bestas, mas não plenamente, apenas potencialmente: sua humanidade equivale à possibilidade de sua conversão religiosa. Nesse sentido, a potência de que se investe a alteridade depende, para ser reconhecida como potência do humano, de sua própria captura nos dispositivos da religião, caso contrário permanece uma potência monstruosa. Em todo caso, no entanto, essa captura nunca poderá se efetivar por completo, uma vez que o fantasma da inautenticidade assombra toda conversão. Por isso, a inscrição dos habitantes do Novo Mundo na humanidade equivale a um processo interminável, no qual sua domesticação se dá apenas na medida em que se afigurem sob o signo do monstruoso (seja na forma radical do canibal, por exemplo, ou na forma atenuada da inautenticidade). Toda colonização começa pela domesticação da alteridade, por meio de sua inscrição numa máquina perversa, na qual ela deve assumir o papel do monstruoso, demarcando as fronteiras da humanidade. O lance perverso da máquina colonial que inaugura a consciência moderna da humanidade reside no fato de que ela coloca em movimento uma engrenagem que inclui a alteridade na humanidade – os habitantes do Novo Mundo são humanos – por meio de sua exclusão do comum – a potência que pode defini-los como humanos é o que os mantém ao mesmo tempo ligados à condição abjeta de sua monstruosidade, é antes de tudo uma potência monstruosa, uma potência para o monstruoso.

III

Na iconografia da nação, são também os rastros da vida social, econômica e política que virão se inscrever de forma mais ou menos cifrada. Recorrentemente assombrada pelo monstruoso, a iconografia nacional brasileira encerra os rastros de importantes instituições, figuras e formas sociais: os colonos, os indígenas, os africanos, os escravos, os engenhos, os caçadores de escravos, os senhores, os fortes militares, as vilas, as paisagens, as plantações, as cidades... Um percurso possível passa pelas imagens apresentadas abaixo, de autoria de Hans Staden, Albert Eckhout, Frans Post, Hercule Florence, Jean Baptiste Debret, Candido Portinari e Tarsila do Amaral, entrelaçando a questão da antropofagia e os rastros da vida social, econômica e política, em torno de uma interrogação da potência ética da imaginação. As imagens são produtos de formas de imaginação que projetam no futuro certas possibilidades da história e excluem outras, canalizando a potência ética da imaginação dentro de programas culturais. Nesse sentido, a estética da iconografia da nação movimenta uma série de questões políticas cuja única possibilidade de interrogação reside numa ética da insatisfação e numa poética da desprogramação. Imaginar o Brasil de outra forma, reimaginar o Brasil a partir e para além da iconografia da nação, passa a ser uma das tarefas mais urgentes de cada nova geração.

IV

De Hans Staden ao modernismo do movimento antropofágico (e depois), a antropofagia constitui um conceito-metáfora central na imaginação da nação brasileira. Como signo problemático, inscreve a alteridade ameríndia às margens da humanidade, como monstruosidade que precisa ser convertida, colonizada, domesticada. Como signo promissor em sua ambivalência, extrapola a descrição de supostos rituais e costumes ameríndios para assumir a dimensão de uma lógica cultural geral, que nega dialeticamente toda pretensão de pureza de identidade em nome da potência de um movimento incessante de apropriação que acaba por tornar indefinível o conceito mesmo do próprio. Entretanto, a antropofagia corre sempre o risco de se tornar o próprio, de se institucionalizar como a forma mais purificada, em seu vazio, de identidade nacional, deixando sua potência mais poética ser capturada por uma máquina de domesticação.

Ao se institucionalizar como programa cultural, a antropofagia se configura como uma peça central do motor do dispositivo nacional brasileiro, assumindo a condição de mecanismo de dominação ((O filme Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, rescreve o livro homônimo publicado em 1928 por Mario de Andrade e recoloca em questão a antropofagia, retomando temas de reflexão que Oswald de Andrade propôs no contexto do modernismo. No filme, a antropofagia aparece como uma peça crucial do dispositivo da nação, revelando-se como o motor das relações sociais, de modo que Joaquim Pedro de Andrade diz que, adaptando o livro, chegou à conclusão de que "Macunaíma era a história de um brasileiro que foi comido pelo Brasil". Para o cineasta, a antropofagia é "a denúncia de uma condição primitiva de luta, uma luta resumida ao seu nível mais primário". É nesse sentido que opera como conceito-metáfora da nação brasileira: a antropofagia se afigura como a monstruosidade mais essencial, aquela que possibilita a demarcação das fronteiras da brasilidade.)). Se a antropofagia se torna o motor do dispositivo da nação, torna-se uma exigência política a busca de uma poética da desprogramação que jogue a antropofagia contra si mesma, fogo contra fogo. Nessa busca, está em jogo a recuperação da potência da antropofagia que o dispositivo nacional captura e contém numa esfera separada, neutralizando-a. Está em jogo a destruição da estrutura de separação que aprisiona a dialética antropofágica e a faz assumir a condição de mecanismo de dominação. Está em jogo a possibilidade de imaginar o Brasil de outra forma.